8 de maio de 2008

Trilhos de Angola

Em Angola, a informação geográfica, quando existe, está, muitas vezes, desactualizada. Surge então a preocupação básica de recolher informação actual...às vezes tão difícil pelos trilhos sinuosos existentes.

Os nomes das divisões administrativas escrevem-se, às vezes com K's, outras vezes com C's.

Com os nomes das localidades, às vezes não é fácil chegar a um concenso!

Surgiu então um projecto, os "TRILHOS DE ANGOLA", que têm essa preocupação...e qualquer um pode contribuir. Ainda nos primeiros passos, mas com passada segura...

É dinâmico? Tem GPS? Passeia por Angola? Venha adiccionar informação neste pote geográfico...

29 de abril de 2008

Caso Fritzl

Hoje choca-nos o caso Fritzl. A mim também me choca. Estamos perante um caso que, análogamente, me faz lembrar a escala de Richter para os terramotos. É uma escala aberta porque fisicamente é possível a Terra abanar mais. Felizmente nunca foi presenciado. Este caso Austríaco é um pouco assim...é conhecido hoje uma parte das atrocidades que os humanos podem fazer uns aos outros. A história é macabra e custa-me a crer que uma mente humana tenha, por tão longo período, mantido tão horrível farsa. Não quero dissertar sobre os acontecimentos, nem opinar sobre os mesmos. Quero deixar aqui uma ideia que me passou hoje no Metro, a ler no Metro esta notícia.

Não me levem a mal o que digo, mas:

- com água canalizada;

- aparente limpeza;

- organização;

- existência de elementos decorativos;

...sou levado a pensar que estas "caves horrendas" ou "masmorras do terror" têm melhores condições que muitos lares Angolanos!

22 de abril de 2008

Fotos e pegadas

Num local turístico, não sei bem onde, nem quando, vi uma frase que não esqueci:

"Não leve senão fotos, não deixe senão pegadas"

Vá lá...ainda me lembro da frase...

Achei muito boa a frase, para que nos sintamos responsabilizados nas visitas turísticas! E, como é isso que (também) tenho feito em Angola, decidi partilhar a frase, reflectindo o seu conteúdo.

Quanto às fotos, já fui deixando uma boa percentagem aqui no blog, reportando locais, histórias, aventuras e até alguns pensamentos (imagine-se!).

As pegadas fui deixando numa boa parte do território Angolano. Tanto em trabalho como em passeio tive o prazer de viajar por uma grande parte do território, um país bem bonito, mas demasiado massacrado!

Estive em 11 das 18 províncias e percorri mais de 5000Km por estrada, por estas estradas!

Ficam algumas más recordações: algum racismo e algumas situações de maior vulnerabilidade. Mas a maior parte das recordações são muito positivas, numa terra que nos surpreende quase diariamente…para o bem ou para o mal. O contacto com pessoas em locais bem remotos, a convivência com vidas muito diferentes, o desenrasca de muitas situações e, a acompanhar isto tudo, o sorriso e a paciência que são necessários para “encaixar” alguns cenários.

Ficou uma experiência da qual nada me arrependo…

As bolinhas indicam os locais onde deixei a pegada...e em quase todos deixei também, pelo menos, uma noite de sono! As linhas a vermelho indicam os percursos terrestres, feitos de carro, de jipe, ou mesmo de candongueiro...

16 de abril de 2008

À engenharia...

Quer se goste dela ou não, tem que se admitir que é imprescindível. A engenharia cobre vários ramos da ciência e em todos eles tem um papel preponderante. É através da engenharia que as civilizações vão dando passos evolutivos. Além das óbvias pontes e edifícios, temos também a investigação noutras áreas menos visíveis, mas igualmente importantes. O ADN tem vindo a ser traduzido pela engenharia genética, a descoberta de novos materiais vem, em parte, da engenharia Química, etc…

Este post é uma homenagem específica à engenharia automóvel! Quando os engenheiros, lá nos seus gabinetes, desenham um veículo, pensam na sua longevidade… Pensam no tipo de piso onde determinado veículo vai andar, pensam o clima mais específico para determinada opção, pensam na vida dum motor em função do seu esforço, pensam no cansaço do chassis, pensam em tudo!
Não imaginam eles que os carros que desenham possam ter várias vidas e prolonguem o seu fim…ao máximo!

Uma grande parte do parque automóvel de Luanda é constituída pelo ressuscitar dos carros provenientes, maioritariamente, da Europa! Carros usados ou muito usados que chegam a Angola para, diria, uma nova Era nas suas vidas.

Carros que (parece que) não servem na Europa…são muito bem vindos em Angola. Até seria giro fazer o rasto de alguns carros…qual a sua utilização ao longo da sua vida e ao longo dos continentes. O seu fim, aqui, é quase sempre o mesmo…desmantelação massiva…é que só sobra mesmo a carcaça. É que só sobram mesmo as peças que não têm mais parafusos nem encaixes!

Antes da ultrapassagem

Para complicar ainda mais a vida de cada bólide, eles encontram aqui um percurso de vida bem penoso…que nem sei por onde começar a lista. Não é fazer queixinhas, é…fazer observações…

As estradas, apesar de muito trabalho de recuperação, andam como o queijo suíço…cheias de buracos. Buracos dinâmicos que aparecem da noite para o dia de diversas dimensões. Buracos que conseguem imobilizar uma carrinha…e que, quando chove, ninguém sabe onde eles se encontram!

O trânsito obriga a um zig-zag que, para as suspensões, deve parecer o interior do “Touro mecânico”. O pára e arranca e as travagens bruscas colocam todas as pecinhas a funcionar. Ao fim da tarde, no funil de regresso a casa, quando se inventam 6 faixas no espaço de duas, é a chapa quem paga! Os pneus “recauchusados” pregam algumas partidas, num piso que reserva sempre surpresas.

Todas estas máquinas andam com um combustível que demora a chegar aos seus depósitos. Num país que caminha para os 2 milhões de barris de petróleo por dia, a gasolina das bombas muitas vezes esgota-se. O mercado paralelo cresce assim como alternativa, com bom e mau sentido. A gasolina chega mais perto das pessoas com maior frequência, mas a exigência do negócio envolve alguma perda de pureza dos ditos químicos.

Embora as marcas que cheguem agora já se façam acompanhar de alguma assistência técnica, o volume de avarias é gigante, principalmente na camada informal de veículos!

Se se costuma dizer que em cada Português há um treinador de futebol, deixem-me alargar a ideia e ainda dizer que há um mecânico em cada Angolano… Com as ferramentas que tiverem, com alguma sabedoria que tenham absorvido, mas com muita intuição também…arranjam, ou remendam os seus carros. E digo-vos…o que é certo é que as máquinas continuam a rolar…

Acadadinho de fazer uma ultrapassagem

Assim sendo, um grande bem-haja aos senhores engenheiros que desenham os carros com uma vida que é largamente ultrapassada…em tão difíceis condições…

A andar à minha frente

11 de abril de 2008

Destino Malanje

Mais uma sugestão de fim de semana. Agora a proposta é Malanje, no interior de Angola e a uns 430 Km de Luanda, para leste. Caminho que o fará passar por 4 províncias de Angola: Luanda, Bengo, Quanza Norte e Malanje... Conhecerá mais provincias numa só viagem do que muita gente que cá está durante meses!!


O caminho faz-se bem. Nas calmas, demorará umas 7 horas. Nas calmas quer-se dizer com paragens para fotografias, pequenos desvios, etc... A estrada está boa. Dir-se-ia que 90% da estrada está em boas condições...leia-se alcatrão sem buracos. A sinalização é pouca e os obstáculos são muitos. À medida que se afasta de Luanda, vamos passando por terrenos mais, muito mais rurais. Encontrará árvores tombadas, cabras a passear, caminhantes na berma, etc...vai precisar de muita atenção. Os destroços de acidentes passados são frequentes. Poderá chocar-se um pouco com o estado de alguns, mas...se quer um conselho, interprete-os como prevenção rodoviária...e concentre-se na estrada!



Muitas vezes encontram-se camiões avariados no caminho. Na falta de triângulo, usam troncos e pedras...no meio da estrada! A atenção vai ajudá-lo a reagir quando for numa estrada a rolar em velocidade cruzeiro e encontrar alguns buracos inesperados. É exemplo disso este esqueleto de ponte, no meio duma estrada onde se pode "voar" a uns 100Km/h. Apesar do aspecto, a ponte está estável e faz a sua função de "ultrapassar" o rio. Basta descobrir um espaço para fazer passar as rodas...e seguir caminho!

O itenerário passará por algumas cidades de interesse. O Dondo, uma cidade junto ao rio Quanza, é a primeira. A marginal abandonada permite-nos um passeio para avistar o rio, por entre o capim crescido nas margens. A lama é agora o piso, substituindo o alcatrão e disfarçando os buracos... Não se avista grande agitação nas ruas. Embora pacata, é uma boa paragem durante a viagem.

Como a cidade se estendo por ambos os lados do leito há, obviamente, serviço de cacilheiros. Embarcações tradicionais, a remos, transportam no entanto alguma tecnologia. Não sei como será em relação a seguros de carga, mas com telemóvel disponível, a vida fica mais facilitada!

A cidade a seguir é N'dalatando. Tem pouca construção em betão, mas não deixa de ser uma cidade bem apresentável! Muita agitação nas ruas e um espirito de bem estar. As pessoas, aliás, a esta altura da viagem, já são bem diferentes das de Luanda. Aqui já se trocam sorrisos, conversas e fotos.

A chegada a Malanje, algumas horas depois, faz-se com muita naturalidade. É uma cidade que, sem muito fazer, lhe dará logo as boas vindas. Parece que já a conhecemos antes de lá ter ido.


As avenidas são espaçosas, os edifícios mais ou menos mantidos...mantidos na mesma, mas com aspecto de que alguém lá mora e se preocupa com a casa! Igrejas, palácios, monumentos e palmeiras decoram a simpática cidade de Malanje. Também aqui a vida nocturna é simpática e cativante. O volume de pessoas que se dirige à discoteca Marimba é grande. Bons dançarinos, ambiente acolhedor e uma noite bem passada. Não deixe de lá dar um "saltinho de dança".

No dia seguinte aproveite para visitar as quedas de água de Calandula. Um caminho que lhe levará 2 horas por uma estrada em mau estado. A dada altura começam-se a avistar, ao longe, as quedas de água. Depois do Sumbe, até poderia haver suspeitas de algum roteiro de quedas de água, mas é coincidência. Até porque cada local destes é único e este, em especial, é assinalável! Não sendo justo fazer comparações, as quedas de Calandula são de uma dimensão imponente.

Antes de chegar perto do chuveiro gigante, passará ainda pela localidade de Calandula. Parada no tempo! As carcaças dos edifícios coloniais ficaram plantadas à beira da estrada e muitas vezes o interior é também um abandono...
Em relação, mais uma vez, à arquitectura, delicie-se e surpreenda-se com algumas construções.Para pernoitar nas quedas de Calandula, tem 3 alternativas, duas delas dir-se-iam conceptuais.
A primeira faz parte dum passado que ninguém parece querer lembrar-se. Uma pousada, numa das margens das quedas, está ao abandono...há muitos anos.

O pouco que ainda não foi abafado pela vegetação deixa-se ver num estado de degradação sólida. Não há caminhos à volta, não se faz a recuperação da ponte que lhe dá acesso e provavelmente suspeita-se de existência de minas em redor. Uma pena! A recuperação deste local daria apoio aos muitos visitantes (e são muitos) que cá passam e que começam a chegar às 8h da manhã...colocando de parte os que cá dormem. A pousada proporcionaria outra vista das imponentes quedas, proporcionaria belos passeios nas encostas que, nesta altura do ano, são de um verde contagiante.

E é essa natureza que se pretende encontrar aqui. Por isso, a segunda opção, também conceptual, embora menos, é uma pensão próxima do local da quedas. Quarto com casa de banho privada e TV. Conceptualmente bom, claro! Mas ainda estão a acabar de arranjar os quartos...a não ser que a lama do chão seja efeito dos azuleijos!, a não ser que o rasto de cimento na parede seja decoração moderna. Porque até já havia preçário! Por 30 euros terá direito a dormir o sono possívelmente tranquio.
Não despreze esta alternativa. Em África a pessoa habitua-se a viver com o que há. Quando há. E há pouco. Se cair uma tempestade forte vai achar muito mais piada a este aconchego...

Bom, seja como for, pode optar pelo campismo. Tenda, patuscada e uma noite bem passada em natureza. Aproveite o local e faça figas para que, se houver tempestade, seja passageira. Porque se ela decide ficar...lembre-se do quartinho com TV e gaste 30 euros! O ronco da trovoada e o seu eco fazer-lhe-ão lembrar que a "mãe natureza" é quem manda!

As quedas são perigosamente selvagens. Não é obrigatóriamente mau. Se não estiver com ideias suicidas, poderá dar um passeio, em consciência, e tirar fotografias. Esta é uma paisagem que até ajuda os fotógrafos mais ruins!


O miradouro, degradado, mas aparentemente estável, permitir-lhe-á ter uma vertiginosa vista sobre as quedas. Passe por aqui à noite, nalguma noite escura. O som da água e os trovões no horizonte são um momento para recordar!



Regresse a Luanda com calma. Lembre-se que as viagens não são só tirar fotos. Aproveita-se tudo! A ida, o estar e o voltar, com histórias, fotografias e energias recarregadas!