6 de junho de 2010
Afinal, trabalho...
31 de maio de 2010
Reciclagem tradicional
A bordo dum LandCruiser com história, quase com vida própria, viajei com uns colegas ao interior da província de Cabo Delgado. Algures no caminho paramos, compramos pernas de frango e refrescos. A carne é exposta numa cesta, onde está uma lata cortada a meio com piri-piri…a colocar pelo freguês, à sua vontade. Já na estrada, gargantas e estômago saciados, vejo o condutor a abrir a janela. Coloca a lata do lado de fora e abre a mão. Lança com displicência a lata de Coca-Cola em pleno alcatrão. Eu até podia pensar que ali começava a famosa história que nos deixa ver uma lata de Coca-Cola em todo o lado do mundo, mas não, fiquei chocado. Acabo a minha bebida e guardo-a. Como o carro vai aos tombos, fintando os buracos do caminho, amachuco a lata e entalo-a entre os bancos. Fico satisfeito. Outro viajante abre a janela, encaminha a sua lata e prepara-se para a largar. Olho-o com os olhos arregalados, reprovadores e interrompo-o:
- Não deites aí! – impondo, timidamente, a não poluição
- Tens razão, desse lado do carro é melhor – diz ele, passando-me a lata
- Não é isso. Não deites fora de todo…guarda aí e depois pomos no lixo – já assumindo de vez a reprovação – olha, coloca aqui ao pé da minha…
Antes que ele pudesse fazer alguma coisa, repeti o processo, amachucando-a…
Ele olha para mim com ar de incompreensão:
- Não pode ser assim, André. Nós deitamos fora e a população apanha. Depois aproveitam, dão-lhe outro uso. Assim já estragaste duas latas!! – revertendo de repente a reprovação
No regresso, acabada outra lata de refresco, reflecti na conversa que tive com um dos meus companheiros de viagem. Guardo, o que acho mais correcto, mas sabendo que ele me vai repreender, ou largo janela fora, entrosando-me nos hábitos locais? - era o meu pensamento. Abri a janela, coloquei a mão de fora…e…hesitei. Lá fora a estrada era de terra batida, levantando uma leve poeira que ornamenta a vegetação mais próxima, porque a mais distante é de um verde vivo. Não há sinal de nenhum elemento artificial, a não ser de quando em quando um poste de electricidade. As bermas têm sempre pessoas a passar, seja a pé, seja de bicicleta. Abri a mão. Ninguém reclamou e até os transeuntes no exterior sorriram. Afinal dei inicio ao processo de reciclagem tradicional!
20 de maio de 2010
Viagem à Zé-Tó
Fiz uma viagem “à Zé-Tó”. Mas primeiro vou explicar quem é, o que é e depois então, o que fiz.
O Zé Tó é um tipo que nasceu em Cativelos, na Beira Alta. Ainda menino e moço mudou-se para a capital, estudou matemática e, ao contrário do que se diz deste curso, teve muita saída profissional. Talvez porque fez pouca matemática e muitas outras tarefas: jornalista, escritor de programas, turismo e, claro, um exímio professor! Nos últimos anos tem sido um verdadeiro caixeiro-viajante, espalhando a palavra da estatística por essa Europa fora.
O Zé Tó gosta, e muito, de viajar. Aliás, foi pela sua mão que conheci maior parte da Europa, quando eu ainda era pequeno. O meu pai a guiar, a minha irmã a ler o mapa e eu a fazer o catering da tripulação (sandes com uva era o fruto da minha imaginação juvenil). Assim percorremos milhares de quilómetros em diferentes paisagens e idiomas. O delírio do Zé Tó em viagem são as fronteiras, quando ainda as havia na Europa toda! Eu pequeno aos trambolhões no banco de trás e o meu pai dizia: “André, agora senta-te, é a fronteira!”. E eu, traquina, inventava um ar sério, olhos esbugalhados a ver os letreiros de despedida e boas vindas dos países… Era, para o meu pai, um acto solene. Outra língua, outra moeda, câmbio à pressa feito mentalmente, documentos e a feliz obtenção de um carimbo. Ficava até desiludido quando não lhe davam um carimbo no passaporte. Além do delírio com as fronteiras, há um especial fascínio por fronteiras complicadas!

Enfim, temos um historial longo de transporte de fronteiras difíceis, seja a pé, de carro ou comboio!


- Então, estão perdidos?
- Sim. – Objectivos…
- Sigam-nos que vos vamos ajudar a retomar o caminho.
AAhhhhh…como adoro a mística das fronteiras!
14 de maio de 2010
Notas da História
Hoje gostaria de vos trazer alguns registos sobre a história de Moçambique. Como tem sido hábito, faço alguma pesquisa para vos entregar a melhor informação possível. Neste momento o centro e norte de Moçambique estão com sérias dificuldades de comunicações, telefones e internet, por causa duma avaria. Não deixa de ser possível, no entanto, este Tertuliante perscrutar outras fontes de sabedoria e partilhá-las. Por isso aqui ficam algumas notas da história, contadas com o apoio de reais notas históricas.


E outras tantas coisas que se lhe diga tem a conferência de Berlim que, em 1885, reuniu as principais forças europeias colonizadoras e…dividiram África a seu belo prazer! Como crianças a fazer castelos na areia e a colocar pedrinhas nos seus terrenos e a dizerem: “a partir daqui é meu, não podem tocar!”. Esta divisão é culminada em 1891, com o acordo entre Portugal e a Grã-Bretanha, a potência colonizadora que ocupava toda a envolvência, excepto o norte. É então definida a fronteira que ainda hoje se conhece.
No inicio de 1914 é imposto o escudo. Impresso pelo extinto Banco Nacional Ultramarino, com uma mensagem que dizia: “pagável em Moçambique”. As figuras que apareciam em cada nota eram de origem Portuguesa, mas com acção em terras Africanas.

ESCUDO – Notas compradas na praia, num admirável bom estado, por cerca de 3,5 euros

Depois da independência, Moçambique retomou a anterior moeda, o Metical. O agora chamado “Metical da velha família” foi introduzido em 16 de Junho de 1980. Simbolicamente 20 anos depois do massacre de Mueda, tido como o ponto de viragem para o inicio da luta armada pela independência onde, como forma de intimidação, as autoridades portuguesas mataram mais de 500 pessoas.


6 de maio de 2010
Praia armadilhada
Fiz a primeira incursão à “minha praia”, aquela que fica a menos de 100 metros da minha porta. Entusiasmado a andar pelo matagal, perguntei a um guarda o caminho, pois não estava muito definido. Não estava à espera duma passadeira de madeira, com bancos de jardim em redor, crianças a brincar e bancas a vender jornais e gelados, mas achei estranho o caminho estar tão camuflado pelo desleixado crescimento do mato.
De regresso comentei com o mesmo guarda: “a praia cheira um pouco mal…”, tentando ser diplomaticamente correcto e, deixando a batata quente do lado dele, sacar alguma informação. E obtive-a, clara e prontamente: “Pois, sabe, é que a praia serve para atender as necessidades das pessoas do bairro que não têm latrinas”. No escalão de escoamento de necessidades há esgotos, há fossas, há latrinas e há a praia!

