1 de setembro de 2018

Generosamente Pedro


O destino quis levar-te demasiado cedo com tanto ainda por dizer e fazer. Resta-me aceitar e saborear as tantas e tão boas memórias que tenho de ti.



Nesta despedida física, de tanto adjetivo que se tem usado para te caracterizar, há um que foi unânime: generoso. É nele que pego para te agradecer.

- A generosidade do teu sorriso inigualável. Sorrias com todo o rosto, contagiando  boas energia e outros sorrisos;

- A generosidade que te permitia sempre ter uma palavra construtiva sobre qualquer pessoa;

- A forma generosa com que vias a beleza dum desafio do caminho, onde muitos apenas reclamavam dum trilho sinuoso e cheios de pedras;

- Quando partilhávamos alegrias, tinhas a generosidade de substituir as palavras que não te saiam pela garganta trémula com um abraço. Um abraço grande, demorado, de veludo, que tanto dizia sem uma única palavra;

- A generosidade que te afligia se não conseguias soluções humanas e simples para problemas grandes no trabalho;

- A generosidade que te deixava feliz com a presença ou a felicidade dos que amavas;

- A generosidade com que agradecias cada dia da vida, por estares vivo, por estares de saúde e teres uma nova página por escrever;

- A generosidade do discurso assertivo, de palavras ponderadas, sem rodeios;

- A generosidade de teres sempre tempo para escutar, enrolando um caracol no cabelo ou cruzando os braços na tua característica barriga e dizendo: “hhmmm”, recebendo de forma neutra a mensagem;

O mundo perdeu um grande ser humano, perdeu um poço de generosidade.

Levarei comigo, na caminhada, a tua voz, a tua paz, o teu exemplo, o teu sorriso, a tua generosidade. Tenho a certeza que tornará o percurso muito melhor.

Obrigado por ter feito parte da tua vida e termos partilhado tanto ao longo do caminho.

Até um dia, onde nos encontraremos algures para partilhar uma garrafa de vinho…

3 de julho de 2018

Um estranho em Hyenpung


Hyenpung é a zona da Coreia onde morámos durante quase 6 meses.





Zona nova, a 20 minutos da cidade de Daegu, urbanizada e pensada a régua e esquadro. Por vezes pensava que a zona tinha sido desenhada por um especialista no famoso jogo SIMCITY. Nem a floresta de edifícios de 20 andares me chocavam. A Coreia tem um pouco mais de área que Portugal, mas quase 51 milhões de habitantes. Ou seja, uma densidade populacional bastante maior que em Portugal. Assim, se alojarmos as pessoas na vertical, há mais espaço na horizontal para a circulação, espaços de lazer, zonas comerciais, passeios nas montanhas, etc…



O estranho fui eu, que em quase 6 meses, os estrangeiros que vi não me encheram os dedos duma mão. Ser estrangeiro em Hyeonpung é quase como ser uma celebridade. A grande diferença é que nunca ninguém me pediu um autógrafo ou quis tirar uma selfie comigo.

Ao apanhar o autocarro em Daegu para Hyenpung o motorista bloqueia a minha entrada. Com um ar muito admirado e tenso diz-me para não entrar, pois o autocarro vai para Hyenpung. Dá ideia que irei passar uma barreira proibida aos estrangeiros, ou talvez ele tenha medo que me tenha metido num autocarro por engano. Digo-lhe que sim, o meu destino é Hyenpung. Ele cede e deixa-me entrar, mas abana a cabeça, como se eu estivesse prestes a fazer um erro grave.

As crianças perdem a postura que as levava pacatamente para casa. Fazem sinais nervosos, chamando a atenção aos amigos para o “fenómeno”. Os sinais são universais, de maneira que quando dão as primeiras pancadas nas costas dos amigos, já eu me rio por dentro. Olham esbugalhados, incrédulos, pois as personagens dos livros da escola, que dão conta de outros países e culturas são uma realidade. Parece que saí das páginas dos estudos e deambulo como exemplar vivo do Ocidente.

Algumas crianças mais velhas tentam o diálogo em Inglês, tímidos. Ouve-se o clássico “Hello” ao que eu costumava responder “ Hello, how are you?”. Frase que os deixava logo sem fala. Não porque não saibam mais, mas parecia-me que não esperavam resposta e, surpreendidos, fugiam.

Os adultos não costumavam ligar muito. Um sorriso, algumas palavras de Inglês, às quais eu tentava responder no meu mau Coreano, eram suficientes para partilhar cordialidade.

Os mais idosos é que reparavam e muito. As avós não se continham quando me viam com a família. Ao olharem para a Bia exclamavam “mas que menina tão linda, muito parecida com o pai”. Uma observação deveras apropriada para se dizer…em frente à mãe!

Os avôs olhavam fixamente com um espanto congelado no rosto. Os que conseguiam arriscar algum inglês, com um sotaque nem sempre perceptível, diziam: “where?”, “country?”, “from?”, uma palavra que procurava satisfazer a enorme curiosidade de saber de onde vinha este Ocidental. “Portugal”, dizia eu. “Aahh”, obtinha quase sempre como resposta. Um “aahh” que podia significar muita coisa, como “longe”, ou “não faço a mínima ideia onde fica”, ou “isso é um país?”. Mas um “aahh” que encerrava a conversa, pois nem o inglês deles, nem o meu coreano dava para maiores desenvolvimentos. Acabava o curto diálogo com o meu melhor sorriso.

9 de junho de 2018

Homenagear os antepassados

Hoje trago-vos uma experiência da Coreia do Sul que me comoveu bastante. Nós em Portugal temos por hábito celebrar o 1º de Novembro homenageando entes queridos falecidos. É uma forma de valorizar os antepassados ou alguém que partiu prematuramente.

Na Coreia do Sul, o que me comoveu foi a organização e disciplina de tal evento.

A cerimónia, no passado, era feita em cada dia em que um ente querido (até à 3ª geração) tinha falecido. Além disso eram feitas cerimónias maiores, homenageando todos esses antepassados em conjunto, duas vezes por ano: na passagem do ano lunar e no dia de acção de graças. Com isto chegava-se a ter dezenas de cerimónias por ano! Como na Coreia o tempo é um bem cada vez mais escasso, e as pessoas gostam de ter vida, em muitas famílias faz-se apenas uma cerimónia, no dia de acção de graças.

Só é possível fazer esta cerimónia com uma descendência de homens, ou seja, se um casal só tiver filhas, acaba-se a cerimónia na família (sim, a sociedade Coreana é bastante machista).

As mulheres preparam a comida (hoje em dia os homens já dão uma ajudinha) durante horas a fio.

As quantidades são muitas vezes superiores às barrigas na sala, e até aos olhos todos somados! Inexplicável. Dá a sensação que a qualquer momento entrará pela porta uma equipa de futebol esfomeada para ser alimentada, mas isso nunca acontece.


No altar, estão escritos os nomes dos familiares falecidos, com caracteres chineses (país de onde vem esta cerimónia). Contam-se 3 gerações para trás e lá estão todos lembrados. Não deixa de ser emocionante que, nem que seja por um dia, por umas horas, haja a humildade de homenagear quem nos pôs no mundo e quem fez o que pôde para ir prolongando a história da família.




Os antepassados são servidos com toda a comida preparada e há um brinde para celebrar tal momento. A vénia não pode ser esquecida, nunca o é. Desde os primeiros passos na educação duma criança têm que prestar cordialidade aos mais velhos, seja na linguagem, nos modos ou na vénia.





Depois de saciados e homenageados os falecidos, é tempo de os presentes na sala comerem. A comida, como em qualquer casa coreana, abunda. É indelicado que alguma travessa termine, quando algum dos presentes ainda tiver vontade de comer. Acho que nunca me vou habituar à ideia.

Durante a refeição, não pude evitar o desviar frequente do meu olhar para o altar, sentindo que os antepassados observavam em paz a nossa refeição. Agradecia, sem os ter conhecido, de terem prolongado a família coreana onde entrei, e onde conheci a minha companheira…

17 de maio de 2018

Banhos públicos



Os banhos públicos na Coreia do Sul, assim como em muitos países, nasceram da necessidade de higiene pública. A Coreia do Sul dos anos 50 era muito pobre e traumatizada com a guerra que separou as Coreias. A falta de condições das casas e os Invernos gélidos que traziam temperaturas máximas de -10°C, levou à criação dos banhos públicos para que as pessoas se podesse lavar convenientemente, pelo menos 1 a 2 vezes por semana.

Com o passar dos anos, com o exponencial crescimento da Coreia do Sul e melhoria das condições das casas, os banhos públicos entraram num contexto de SPA: ajuda a desligar do ritmo frenético em que o país mergulhou.

Os banhos públicos são compostos por piscinas, saunas, jactos, jacuzzis e esfoliação. Não há uma sequência a seguir. É ao sabor de cada um...

Piscinas de várias temperaturas. Desde os 15C aos 45C. Pode-se jogar com choques térmicos (adoro!) ou simplesmente ir derretendo o corpo nas temperaturas mais elevadas.

As saunas são variadas, em humidade, temperatura e odores. A mais surpreendente para mim foi uma sauna à temperatura de -10C (não é gralha de escrita. São 10 graus negativos!). Havia inclusive avisos para não nos sentarmos sem uma toalha, correndo o risco de colar as nádegas ao banco.

Os jactos, que devem ter como objectivo massajar e relaxar o corpo, muitas vezes obrigam-me a fugir, tal é a força e a dor que provocam, parecendo ser uma projecção de agulhas!

Os jacuzzis sim, borbulham o nosso corpo com água morna, da cabeça aos pés. É de ficar ali horas seguidas.

Por fim, mas de modo nenhum menos importante, existe dentro do banho público um esfoleador profissional. O nosso único trabalho é deitarmo-nos numa marquesa. Depois, o esfoleador dedica atenção a cada centímetro do nosso corpo. Parecemos um réptil a deixar a velha pele cair no chão. Sai-se de lá com a pele limpa e brilhante.



No primeiro dia que cheguei à Coreia, para conhecer a família da Yumi (e ser devidamente analisado) fui levado a um banho público pelo irmão e pai da Yumi. Que maneira melhor haverá para nos conhecermos do que estar, com potencial futuro sogro e cunhado, em pelota, enfiados numa mesma piscina ou sauna? Assumi que as experiências culturais têm destas coisas e tentei agir com naturalidade. Todos estão nus nos banhos públicos, por isso “se em roma sê romano, na Coreia sê Coreano”. O inglês do irmão da Yumi dá para fazer algumas perguntas, de maneira que tive o interrogatório da praxe, sem direito a advogado nem uma toalhita para me tapar.


Na zona dos duches, quando eu achava que tinha atingido a quota diária de interculturalidade, vejo o irmão da Yumi aproximar-se de mim com uma luva áspera de esfoliação. Percebendo o que ele ia fazer eu disse “no, no...no need, thank you”. Ele segurou-me no braço e, com um sorriso que rejeitava qualquer rejeição, disse “Korean tradition”. No segundo seguinte o irmão da Yumi estava a esfoliar-me as costas no duche com a luva amarela, e eu a elevar os meus níveis da quota de interculturalidade. Olhei em meu redor e reconheci um padrão: os mais velhos esfoliavam os mais novos, fossem estes crianças, ou adultos. Esfoliou-me ainda os braços com tal vigorosidade que pensei que ia deixar os sinais da pele todos no duche. Depois deu-me a luva amarela e disse “you do the rest”. Ufa...

Hoje em dia já vamos aos banhos públicos com a naturalidade de duas pessoas que vão tomar café ou ver a bola.

Muitas vezes vou sozinho, sob o olhar espantado dos coreanos. Mas fazer o quê? Adoro o ritual...

17 de abril de 2018

Kimchi

A primeira vez que experimentei Kimchi disse à Yumi “olha que azar, está estragado”. Ela, com os olhos rasgados semi cerrados, que lhe colocam 3 sorrisos no rosto, abanou suavemente a cabeça e disse “não, isto é kimchi, é assim mesmo”. Detestei o sabor.

O kimchi é um elemento de presença obrigatória numa mesa coreana. Como o pão ou azeite na mesa portuguesa. É uma espécie de pickle de couve, daí o seu sabor um pouco ácido e bastante picante.

Muitas famílias dedicam um fim de semana por ano para a sua confessão, que dará kimchi suficiente para os 12 meses seguintes. Tive a sorte de estar presente num desses momentos e ajudar a minha família coreana na confecção.


A couve usada é a couve china e os ingredientes são ao sabor da inspiração e sabedoria familiar.


Alguns dos ingredientes do tempero são: algas, mexilhões, peixe, alho francês, piri-piri, óleo de sesamo, etc… A mãe da Yumi, perante o meu espanto, não segue nenhuma receita. Corta e atira os ingredientes para o algidar e nós mexemos, fazendo lembrar o caldeirão do panoramix. Vai provando o sabor e lá decide o que acrescentar mais. E nós mexemos. Depois deste ciclo se repetir várias vezes, sorriu, chegou ao sabor que queria e o têmpero estava pronto.



O preço da couve nesta altura do ano é controlado. O governo da Coreia do Sul preocupa-se com o mercado da couve, de maneira a não especular o preço em períodos de alta demanda.

Fizemos 45 couves (cerca de 80 kg), com 5 kg de piri-piri e 10 kg de têmpero. Quantidade suficiente para um ano, para uma família de 4 pessoas. Depois de finalizado o têmpero, há que espalhá-lo em todas as couves, folha a folha, num trabalho de paciência asiática. A casa, nesse dia e, a bem da verdade, nos restantes 364, fica perfumada com o cheiro característico do kimchi, que caracteriza uma boa casa coreana.


Existe pré-feito em várias lojas, mas caseiro é sempre melhor. À medida que se vai fazendo, a mestre das operações vai-me dando a provar. Fervo com o picante, mas delicio-me com o sabor: “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”. Neste momento, sou eu que dou pela falta do kimchi se não estiver na mesa. Passei a ser um grande admirador de kimchi...


Há muitas receitas diferentes, dependendo das pessoas que fazem. Algumas receitas vão passando, dentro da família, como uma herança da sabedoria. A nossa, inevitavelmente, parece-nos sempre a mais saborosa. O tempêro foi ajustado ao nosso gosto e as folhas de cada couve mereceram a nossa inteira atenção. 


Para realçar a importância do kimchi na Coreia do Sul, existe um electrodoméstico específico para guardá-lo durante o ano. Aparelho de presença quase obrigatória em todas as casas, estando preparado para manter o kimchi à temperatura adequada até à próxima produção.


O resultado final é divinal. Picante e ácido, óptimo para balançar gorduras ou comidas mais densas.


23 de março de 2018

Menir da salvação



A dona do restaurante sentia-se sempre doente. Andava com poucas forças e por vezes nem conseguia trabalhar. Nem análises clínicas nem médicos detectavam fosse o que fosse. Aos olhos da medicina era uma pessoa saudável. Ela sentia-se, no entanto, a definhar. Dores e mal estares que começavam a prejudicar o funcionamento do restaurante.

Um dia, exausta por se sentir doente com diagnóstico saudável, decidiu chamar um monge budista dos templos nas montanhas. Pediu-lhe a sua análise do que poderia estar a atormentá-la. Ele poderia trazer alguma explicação. O monge chegou ao local e subiu as escadas principais. Lá no cimo parou, olhou para trás e disse: “é este caminho que te leva as energias. Deves bloqueá-lo”.

Mandou-se então vir uma grua para colocar um menir no meio das escadas.


A senhora, neste momento, trabalha em perfeitas condições de saúde. A entrada do restaurante faz-se por uma porta lateral e come-se uma bela sopa de pato.

27 de fevereiro de 2018

O vidro


Das viagens fazem parte os diferentes costumes. É isso que acompanha a adrenalina de conhecer novos horizontes. Podemos gostar ou não, podemos entender ou não, mas há que respeitar. 

Assim foi no nascimento do Leo.

O primeiro e único contacto do bebé com a mãe em 5 dias faz-se nos primeiros segundos de vida.

O pai tem direito a segurá-lo nos primeiros instantes de vida, quando lhe é colocado o bebé recém nascido ao colo. Como todos os cuidados são poucos, há que usar uma máscara e desinfectar as mãos e braços.


Curiosamente a enfermeira que traz o bebé tem uma única preocupação: contar os cinco dedos das mãos e dos pés. Conta-os um por um, como um vendedor que mostra as peças completas dum produto no acto da compra. Aparentemente é um “detalhe” muito importante para os coreanos.


 No dia do nascimento a mãe tem instruções para nem sequer levantar o pescoço. Vê o novo rebento pelas fotografias tiradas pelos familiares, através do vidro!

As visitas, através do vidro, podem ser feitas duas vezes por dia. Os familiares mostram o cartão que identifica o bebé e fazem fila mesmo antes das cortinas se abrirem.


 

Atrás do vidro estão todos os bebés, arrumados e etiquetados, entregues aos cuidados de três “mães” temporárias que tudo fazem para dar as melhores boas vindas aos recém nascidos. Nenhum elemento da família, incluindo as ansiosas mães têm qualquer contacto com os bebés nos primeiros 5 dias. 


O cartão é a unica coisa que nos liga à criança. As “mães” de serviço trazem a criança mais perto de nós, embora através do vidro. Em teoria temos 15 minutos para os admirar, mas como há tanta gente, na prática babamo-nos apenas uns 3 ou 4 minutos. As “mães” de serviço vêm recolhe-lo, para dar lugar a outro bebé, ansiosamente aguardado pela respectiva familia que abana o cartão aguardando a sua vez.

Deliciamo-nos por uns momentos, tentando nem pestanejar, para aproveitar cada segundo. Os bebés estão muito embrulhados à moda coreana, mas todos parecem confortáveis. Afinal, não era assim que estavam nas barrigas das mamãs? Se o bebé estiver para aí virado abre a boca ou os olhos ou vira a cabeça. Caso contrário contemplamos um sono profundo e relaxante.


No dia seguinte ao nascimento, as mães, munidas de um poder que só elas têm, arrastam-se com dores, tonturas, amparadas com o “andarilho” que ainda as alimenta com soro e analgésicos, para poderem ver ao vivo, embora através do vidro, o novo rebento.


O sorriso diz tudo. A caminhada dum corredor, que para a Yumi terá sido o escalar duma montanha, é premiada com a visão do nosso bebé, o Leo.


Ao quinto dia a mãe já tem acesso ao bebé, mas apenas para amamentá-lo. Continua a dormir no berçário e a ter os cuidados das “mães” de serviço.

Ao sexto dia, o momento mais aguardado após o nascimento: preenchidos os papéis o bebé é-nos entregue e seguirá para casa. Começa a caminhada conjunta da família...


Hábitos são hábitos! Pode parecer-nos estranho, podemos dizer que é anti-natura, mas este processo traz duas grandes vantagens: i) a mãe, nos primeiros dias, concentra-se totalmente na sua recuperação; ii) os bebés ficam mais protegidos das gripes que por estas alturas andam espalhadas pelo ar.

16 de fevereiro de 2018

Bem-vindo Leo

Feito no calor da Boavista, Cabo Verde e nascido nas temperaturas negativas da Coreia do Sul, eis o mais recente membro da família Choi Pinheiro.


Vamos viajando e vivendo. Prepara-te rapaz...há muita tertúlia para explorar.

Bem-vindo Leo

17 de dezembro de 2017

Aprender coreano


Enquanto aguardamos pelo nascimento do rapaz, meti-me num curso para aprender Coreano. O plano é exigente: 10 semanas e 4 horas por dia. As 3 professoras, que pouco falam Inglês, distribuíram no primeiro dia 3 grandes livros de estudo e um plano intenso, com trabalhos de casa todos os dias.

A minha ambição? Perceber metade do que a Bia já fala em coreano fluente.

O alfabeto coreano, chamado hangul, começou a ser usado em meados do séc. XV. Antes disso era usado o alfabeto chines.


O alfabeto coreano tem 19 consoantes e 21 vogais. As letras nunca aparecem sozinhas na escrita. Têm que aparecer sempre em grupos de, no mínimo 2 e no máximo 5 letras. Isto dá cerca de 399 combinações de grupos de 2 letras, mais umas quantas combinações de 3, 4 e 5 letras (embora estas ultimas sejam raras, tanto quanto já percebi).

Exemplos:
2 letras (chá): 

3 letras (neve): 

4 letras (mês):

No curso aprendemos o alfabeto em 2 dias! Em alucinante ritmo coreano.

Leio como se estivesse de volta à primária, como indicador colado no papel e a respiração descoordenada com a fala. É o reaprender das letras, reaprender a ler. Leio mas demoro tanto que quando chego ao fim duma palavra de 4 silabas já não me lembro do que disse no início. A palavra desaparece. Leio mais umas vezes e quando tenho o som da palavra a sair de forma fluente, desconheço, na maioria dos casos, o seu significado.


No curso já fazemos ditados, desde o terceiro dia, embora as classificações não sejam brilhantes, já saí do zero que tive nos primeiros ditados. Gramática, vocabulários, regras, excepções…e em casa já consigo fazer uma frase com cabeça, tronco e membros, embora saia de forma desengonçada.


Não estou muito preocupado com as classificações da escola...a minha nota já é positiva, com o sorriso da família em casa ao ouvir-me gaguejar tentativas e diálogo em Coreano.

25 de novembro de 2017

Postais de Kyoto


À chegada…gente, gente e gente!


Organização nipónica. Linhas destintas para organizar quem, numa mesma paragem, vai apanhar autocarros diferentes. 


Os quilómetros que se andam com o lixo nas mãos, sem ter onde o colocar. Apesar disso as ruas quase passam o teste do algodão, de tão limpas que se apresentam.


Templos…


…e mais templos…


Petisquinho de polvo.


Visão de mercado. Pauzinhos de todas as formas e tamanhos, com possibilidade de cravar o nome. Boa ideia para fazer com garfos e facas personalizados.


Bicicletas para todos os gostos. Dos executivos às supermães. Faça chuva ou faça sol.


Jardins absolutamente encantados.


As gueixas já não são o que eram. Estão categorizadas mais como um elemento turístico do que outra coisa. Há as verdadeiras e há as de aluguer. As várias turistas que alugam um fato de gueixa por um dia de passeio espalham a beleza e a cor das vestimentas pela cidade…


A foto à foto. Em certos pontos turísticos a multidão é tanta e tão assanhada, que quase roubam a atenção ao protagonista.


Atenção cirúrgica na preparação da comida que é servida. Tudo conta: o prato, as cores, a disposição, os cheiros, a luz na sala. Meticuloso…


5 de novembro de 2017

Guia da refeição Coreana

Ao olhar para uma mesa de refeição Coreana o espanto é enorme! Pouca semelhança tem com a disposição da refeição ocidental e damos por nós a pensar: “como se come isto tudo?”, ou “por onde se começa?”.


Este texto serve de guia para não se passar fome na Coreia. Na realidade é muito mais difícil, mas os sabores são deliciosos…

1. Comecemos por perceber a estrutura, envolventes e alguns pontos de partida:
Para começar, sentamo-nos todos no chão, descalços, sem apoio para as costas. Para mim é, sem dúvida, o mais difícil na Coreia. Ao fim de 10 minutos tenho a sensação que nunca mais vou descruzar as pernas e que só me levanto com ajuda duma grua;

2. Os instrumentos ao nosso dispor são: 2 pauzinhos, uma colher e as mãos (na Coreia não há pudor em usar as mãos. O mais importante é que a comida chegue à boca). Durante a refeição não há guardanapos;


3. O prato individual de cada pessoa é uma taça de arroz, empapado e sem sal. Assim mesmo. E explico: o empapado ajuda a ser comido com pauzinhos (imaginemos a fome com que ficaríamos se o arroz fosse soltinho) e o arroz insosso serve para balançar o salgado que iremos encontrar no resto da refeição;

4. A sopa, ao lado do arroz, come-se durante toda a refeição. A Bia em Portugal ficou muito chorosa quando, num restaurante, lhe tiraram a sopa porque já estava a comer a carne. Choque cultural;


5. Existe um prato principal da refeição, que pode ser sopa, carne, peixe ou vegetais. No geral há muito pouca carne na refeição coreana. A não ser que o menu seja entremeada, ou intestino. Aí é carne até aos olhos…;

6. E depois há muitos pratos no centro da mesa com uma variedade ilimitada de ingredientes. Quase todos picantes e alguns muito picantes, que pegam fogo desde os olhos até ao estômago (e olhem que eu sou apreciador de picante!). Todas as pessoas se podem servir de todos esses pratos, usando os pauzinhos individuais;


7. Pode haver molhos, onde se irá mergulhar a comida antes de levar à boca. Quase todos os molhos são picantes…

8. O volume da comida costuma ser superior à soma de todos os estômagos, ou seja, sobra sempre comida. Este é um hábito Coreano que ainda faz confusão à minha mente Europeia e à minha educação! O que vale é que em casa a comida guarda-se para próximas refeições. Nos restaurantes há um desperdício chocante de comida;

9. Nos restaurantes ou em casa, para algumas ementas, parte da refeição pode ser cozinhada na própria mesa. É um ritual muito interessante, pois o cozinhar introduz a socialização na ementa, com todos sentados à mesma mesa;  



10. Para acompanhar, as bebidas. Os coreanos no geral bebem bastante. Dá um empurrão importante para romper a bolha da timidez asiática. Emergindo dum silêncio cerimonioso, riem-se, cantam e abraçam…


Principais opções das bebidas alcoólicas:
cerveja (5%)
Soju (20%)
Makolé (6%)


De um modo geral as refeições de cada um são uma espécie de “menu à medida”. Cada um escolhe o que quer comer, dos vários pratos dispostos na mesa.


Recapitulando

Desagregando a mesa principal, a área de acção de cada pessoa é isto: arroz como prato principal, sopa a acompanhar, prato principal da refeição e diversos pratinhos.


Sintam-se servidos. Agora que já conhecem os cantos à mesa, vamos comer…


Podemos ir escolhendo comida dos pratos que quisermos, buscando os nossos sabores preferidos. A sopa segue-nos do princípio ao fim. Quando o arroz termina, termina também a refeição. A não ser que se queira servir mais arroz e continuar.

O ritmo é alucinante e os pauzinhos não param. Geralmente não se fala muito durante a refeição. As conversas ficam para quando se terminar a comida, acompanhadas apenas de bebida. Quando se está no restaurante existe um botão na mesa, para chamar o empregado de mesa e não desperdiçar energia com mimicas variadas para obter a atenção desejada.


Alguns empregados de mesa não andam. Correm!


Das primeiras vezes que comi com a família Coreana, sempre que pousava os pauzinhos, perguntavam-me (através da Yumi, evidentemente) se eu não estava a gostar da refeição. Eu dizia (através da Yumi, evidentemente) que estava a fazer uma pausa para mastigar, para apreciar sabores e respirar. Nunca mais esquecerei o olhar da anciã na mesa: “estranhas manias, este Europeu”, deve ter pensado ela.

Quando dois braços precisam de se cruzar para ir buscar comida na mesa, não há tempo para diplomacias e prioridades. Criam-se níveis de alcance onde, geralmente quem vai ao prato mais longe fica por cima…e a refeição contínua, sem interrupções, sem necessidade de controlo aéreo.


À medida que segue a refeição, vamos picando dos vários pratos, bebericando a cerveja e degustando a sopa. Quando o nariz pinga e o suor escorre já é tarde para perceber qual o prato picante na mesa, ou qual deles é mais picante, pois quase todos o são, sendo que a cor vermelha geralmente é um bom indicador. Os olhos ardem, mas não há tempo a perder. Toda a gente manuseia os pauzinhos num bailado em andamento allegro com o objectivo de exterminar a comida. Devemos acelerar a respiração para compensar a acção do picante no corpo e continuar.


É que tanto quanto já vi, os Coreanos praticamente não mastigam. Duas ou três trincadelas e engolem, enquanto os pauzinhos já foram buscar mais comida. Ininterruptamente até o disjuntor estomacal disser “estou cheio, pára” e abandonam os pauzinhos.


No final a mesa parece um recinto em fim de festival, contando a história do êxtase que se viveu…


Bom apetite