23 de janeiro de 2017

Mata galo

Estávamos em pleno aniversário da ACUB, no bairro da Boa Esperança, cidade de Sal Rei, ilha da Boa Vista. O programa das festividades começava com a meia maratona e logo de seguida o jogo “Mata Galo”. Fiquei curioso com o jogo. Este bairro é conhecido por ter emigrantes de vários pontos de África, que aqui vivem para trabalhar nos grandes hotéis que sustentam o turismo da Boa Vista. De que país será esta tradição? Como se matará o galo? Haverá sacrifício do animal? Bebe-se o seu sangue? (os meus anos de África foram alimentando a minha imaginação e curiosidade).

Com algumas perguntas rapidamente percebi que a tradição é Cabo Verdiana  e que o jogo não é tão bárbaro como à partida pode parecer. 


Quando olhei para o palco vi a cabeça do galo de fora. Corpo enterrado. Aqui, vos garanto, é a parte que faz mais impressão. 


Os primeiros jogadores são as crianças. Olhos vendados e pau na mão, com o objectivo de acertar na cabeça do animal e ganhar um almoço de borla. A organização já tinha um galo suplente, deixando a ideia de que seria fácil acertar e aquele dia seria um banquete de galo no bairro!


Fui desafiado a jogar, mas não foi preciso esforçarem-se muito. A minha curiosidade e vontade de participar naquele dia especial fizeram o resto. Sob o olhar atento de dezenas de pessoas, reservava a secreta crença de que dificilmente iria acertar no animal, e que não lhe iria tirar a vida em plena arena. 


Para os adultos as regras são outras: olhos vendados, aquilo que me pareceram 50 voltas até o cérebro rodar sozinho dentro da caixa craniana, cheio de pessoas à volta a dar indicações em várias línguas e o som das colunas do palco em alta! Escusado contar passos ou fazer uma prévia geometria entre ponto de partida e a cabeça do galo. A venda nos olhos e as voltas que nos dão a seguir transportam-nos para fora do referencial planeado. Nos primeiros passos as pernas enrolam-se, por isso o mais certo é andarmos às voltas nos primeiros segundos. Depois disso só vale a orientação auditiva…


Perceber o que as pessoas diziam (gritavam) de fora da arena revelou-se logo impossível. Apenas tentei posicionar-me com base no som: gritos de um lado, decibéis das colunas do outro. Quando o tom das pessoas aumentou, acreditei estar na direcção certa e PUM…pau no chão, pau partido! Parti o pau?, pensei logo? Ter-me-ão dado um pau podre ou o meu instinto animal está a revelar-se? Pau em dois pedaços. PUM…pau em três pedaços. Acabei com um pau mais pequeno que a colher de pau que usaria para cozinhar o petisco e a 2 metros da presa! Fiquei sem almoçar…


Percebi depois que não é obrigatório matar o bicho. Um concorrente seguinte tocou-lhe na cabeça e ganhou. Aqui está a possível consideração pelo animal, se é que isso se aplica a um corpo enterrado com a cabeça de fora em plena praça, à mercê do sol…e à mercê das pauladas da competição!

 

Fez-se a festa e espero que o galo tenha saciado a todos…

7 de janeiro de 2017

Decoração natalÍcia

A ilha da Boa vista é tendencialmente árida, mas o natal, é sabido, é quando o Homem quiser. As árvores por estas bandas não abundam, mas chegando ao Natal como se garantem as decorações natalícias? Uma alternativa é ir aos Chineses (sim, aqui também os há!) e comprar, mas esta opção tem maior custos, envolve mais lixo e a probabilidade de algum material não chegar ao dia de reis é elevada.

Foi com agradável surpresa que descobri um importante “R” largamente usado na Reutilização de materiais para as decorações natalícias um pouco por toda a ilha da Boa Vista. O que conta é o assinlar da época e "quem não tem cão, caça com gato". Alguns exemplares:











Árvore piramidal, formada por pacotes de vinho Sousete


Esccusado será dizer que não neva na Boa Vista. Temos, é facto, muita areia, mas essa teima em não dar estrutura aos bonecos de "neve"...

Resta saber se, agora depois do dia dos reis, é accionado o outro R, de reciclagem...

29 de novembro de 2016

Areia

Quando ouvi falar da Boa Vista, todas as descrições apontavam para um grande deserto. Mesmo alguns registos históricos atiravam a Boa Vista para segundo plano, em comparação com o potencial (principalmente de agricultura) de outras ilhas de Cabo Verde.


 Quando pesquisei sobre a Boa Vista praticamente só vi areia, sendo a referência máxima o deserto de Viana, repleto de dunas! Cheguei a recear se haveria comida! Cheguei a recear que tivesse que trazer uma catana para abrir uns cactos, de forma a ter algo que beber.

 Na aterragem, quando o avião deu a ultima curva de aproximação, olhei pela janela: só vi areia, mas uma pontinha de cor diferente despertou-me a atenção. Senti-me como um astronauta a chegar ao destino inóspito e, ao aproximar-se, começar a vislumbrar alguns detalhes que lhe disparam os níveis de confiança.


 Hoje trago-vos o detalhe desta areia! De facto, é areia por todo o lado. Chamo a atenção para a monotonia das imagens que se seguem. Poderão chocar as mentes mais dinâmicas…

Em plena cidade de Sal Rei, a banhos a escassos metros de casa.


Em plena cidade de Sal Rei, de canoa a ver tartarugas entre os corais.


Em plena cidade de Sal Rei, a ver surfistas num cenário de por do sol.


E plena cidade de Sal Rei, na pesca.


 Praia de Santa Maria....


...um paraíso que é um santuário de tartarugas.


Num salto ao deserto de Viana, exploram-se formas de diversão...na areia...





Até comecei a descobrir estradas na areia. Mais trilho, menos trilhos. Areia mais dura ou mais mole...


...novos caminhos nos levam a descobrir mais locais...de areia!





 Ainda há muita areia por explorar. Não quero que fique a faltar nenhum grão.

  
Por mais monótono que possa parecer, continuarei a analisar as diferentes formas de areia, para vos levar a informação mais útil.


17 de outubro de 2016

É di mim...

A Bia é bilingue. Recebe o português do pai e o coreano da mãe. Acrescido a isto, ouve o inglês entre pai e mãe. Isto faz dela trilingue aos 2 anos, pelo menos na forma oral.

Quando viemos para a Boa Vista, Cabo Verde, andamos à procura de infantário para a Bia. Estávamos à procura, tal como em Maputo, dum infantário onde se falasse português. Nenhum dos locais nos satisfez e foi quando em conversa percebemos que havia uma escola da qual davam boas referências: escola francesa. Visitamos e gostamos. A nossa única preocupação foi a língua! Tínhamos receio de que na cabeça da Bia houvesse demasiadas línguas. Das preocupações de pais de primeira viagem está o receio que com tanta língua ela baralhe tudo, demore a falar e quando o fizer poderá resultar num retalho onde precisaremos de dicionário familiar. O director da escola garantiu-nos que na idade da Bia as professoras não falam francês. Só o fazem a partir dos 3 anos. Decidimos ficar.

Não demorou muito tempo para perceber que as professoras falavam com ela em crioulo! As professoras, em bom português garantiram-me que a Bia já entendia crioulo. As nossas preocupações voltaram: não estaremos a abusar com tanta língua?

Um belo dia, quando a apanho na escola, ela senta-se no carro, agarra a mochila dela e diz: “é di mim”. Na dúvida, porque por estas alturas ela já vai dizendo umas palavras de português e coreano, perguntei-lhe: “é o quê?”. Ela olhou para mim, ainda agarrada à mochila, com ar de espanto de quem analisa a senilidade do pai. Repetiu: “é di mim” e olhou pela janela, encerrando naturalmente a conversa.

Noutro dia, na praia, apontou com firmeza para alguém na zona do restaurante. Dum grupo variado de pessoas, o dedinho dela foi cirúrgico a apontar e ela disse: “Bonju”! Estava a falar da professora de francês dos mais velhos que cumprimenta com um efusivo “Bonjour” todas as crianças pela manhã.


Será este o momento em que a minha filha me ensina que é muito mais flexível do que eu suponha? A minha ignorante atitude de a “proteger” das diversas línguas caiu por terra. Na minha cabeça o disjuntor disparou. É muito melhor ter diversidade nesta idade (e em todas, a bem da verdade) mesmo que atrase a fala. E mesmo que atrase a fala, falamos de quê?...2 meses?....6 meses? Que diferença faz, se depois de começar a falar teremos uma intérprete inter continental?

16 de setembro de 2016

Terra à (Boa) Vista

Primeiro embate é isto mesmo, é a primeira impressão, superficial, de quem acaba de chegar. Por vezes é consistente com a opinião uns tempos depois. Por vezes não. Vale pelo momento…


 Mudámo-nos para uma ilha com 15 mil habitantes. São precisas mais de 3 ilhas destas para encher o estádio de Alvalade e uma enorme logística para deslocar tanta gente! A capital da ilha é a vila de Sal Rei, com cerca de 10.000 habitantes, menos que o bairro de Alcântara em Lisboa. Este é de facto o primeiro desafio. Como se viverá numa ilha onde, ao fim de 2 semanas, já cumprimentamos várias pessoas por quem passamos na rua? Bem, viver-se-á com simpatia, está visto…



Vamos a números:

- A ilha tem ao todo 52 km de estrada e 55km de praia. Leram bem. A extensão de praia é maior que as vias de circulação. Parece-me uma proporção perfeita!;


- A ilha toda tem 620 km2, metade do tamanho de Londres, mas sem o respectivo trânsito. Pode-se ir a qualquer lado e voltar à capital num dia. Na verdade, numa manhã. O que acontece aqui é que a velocidade de deslocação deve ser forçosamente lenta, caso contrário tudo se faz em muito pouco tempo;

- Vivo a 200 metros da praia e a 300 metros do escritório. Vou tentar não ir trabalhar de chinelos;



- Diziam-me que não chove na ilha, que é um deserto sem vegetação! Mas há vários dias tenho uma inundação à frente de casa. Uma espécie de lago privado. E já estou a criar o meu jardim na varanda do 3º andar;


- 38% da ilha é de áreas protegidas, e quase um quarto da orla marítima é reserva de tartarugas. Espero que se mantenha;


- À noite é a paz, o silêncio. O que mais se ouve é o vento a entrar pela janela e os burros a relinchar (e os geradores em noites sem luz, mas estes não têm encanto nenhum…). O mar, por ser tão calmo, raramente se ouve;


- Estão registadas 37 praias na ilha. O plano da nossa estadia é de 14 meses, o que dá para conhecer cerca de duas praias e meia por mês. Temos que nos apressar…



É verdade, quase não mencionei, venho para trabalhar! Mas isso é assunto de outro post…