27 de fevereiro de 2018

O vidro


Das viagens fazem parte os diferentes costumes. É isso que acompanha a adrenalina de conhecer novos horizontes. Podemos gostar ou não, podemos entender ou não, mas há que respeitar. 

Assim foi no nascimento do Leo.

O primeiro e único contacto do bebé com a mãe em 5 dias faz-se nos primeiros segundos de vida.

O pai tem direito a segurá-lo nos primeiros instantes de vida, quando lhe é colocado o bebé recém nascido ao colo. Como todos os cuidados são poucos, há que usar uma máscara e desinfectar as mãos e braços.


Curiosamente a enfermeira que traz o bebé tem uma única preocupação: contar os cinco dedos das mãos e dos pés. Conta-os um por um, como um vendedor que mostra as peças completas dum produto no acto da compra. Aparentemente é um “detalhe” muito importante para os coreanos.


 No dia do nascimento a mãe tem instruções para nem sequer levantar o pescoço. Vê o novo rebento pelas fotografias tiradas pelos familiares, através do vidro!

As visitas, através do vidro, podem ser feitas duas vezes por dia. Os familiares mostram o cartão que identifica o bebé e fazem fila mesmo antes das cortinas se abrirem.


 

Atrás do vidro estão todos os bebés, arrumados e etiquetados, entregues aos cuidados de três “mães” temporárias que tudo fazem para dar as melhores boas vindas aos recém nascidos. Nenhum elemento da família, incluindo as ansiosas mães têm qualquer contacto com os bebés nos primeiros 5 dias. 


O cartão é a unica coisa que nos liga à criança. As “mães” de serviço trazem a criança mais perto de nós, embora através do vidro. Em teoria temos 15 minutos para os admirar, mas como há tanta gente, na prática babamo-nos apenas uns 3 ou 4 minutos. As “mães” de serviço vêm recolhe-lo, para dar lugar a outro bebé, ansiosamente aguardado pela respectiva familia que abana o cartão aguardando a sua vez.

Deliciamo-nos por uns momentos, tentando nem pestanejar, para aproveitar cada segundo. Os bebés estão muito embrulhados à moda coreana, mas todos parecem confortáveis. Afinal, não era assim que estavam nas barrigas das mamãs? Se o bebé estiver para aí virado abre a boca ou os olhos ou vira a cabeça. Caso contrário contemplamos um sono profundo e relaxante.


No dia seguinte ao nascimento, as mães, munidas de um poder que só elas têm, arrastam-se com dores, tonturas, amparadas com o “andarilho” que ainda as alimenta com soro e analgésicos, para poderem ver ao vivo, embora através do vidro, o novo rebento.


O sorriso diz tudo. A caminhada dum corredor, que para a Yumi terá sido o escalar duma montanha, é premiada com a visão do nosso bebé, o Leo.


Ao quinto dia a mãe já tem acesso ao bebé, mas apenas para amamentá-lo. Continua a dormir no berçário e a ter os cuidados das “mães” de serviço.

Ao sexto dia, o momento mais aguardado após o nascimento: preenchidos os papéis o bebé é-nos entregue e seguirá para casa. Começa a caminhada conjunta da família...


Hábitos são hábitos! Pode parecer-nos estranho, podemos dizer que é anti-natura, mas este processo traz duas grandes vantagens: i) a mãe, nos primeiros dias, concentra-se totalmente na sua recuperação; ii) os bebés ficam mais protegidos das gripes que por estas alturas andam espalhadas pelo ar.

16 de fevereiro de 2018

Bem-vindo Leo

Feito no calor da Boavista, Cabo Verde e nascido nas temperaturas negativas da Coreia do Sul, eis o mais recente membro da família Choi Pinheiro.


Vamos viajando e vivendo. Prepara-te rapaz...há muita tertúlia para explorar.

Bem-vindo Leo

17 de dezembro de 2017

Aprender coreano


Enquanto aguardamos pelo nascimento do rapaz, meti-me num curso para aprender Coreano. O plano é exigente: 10 semanas e 4 horas por dia. As 3 professoras, que pouco falam Inglês, distribuíram no primeiro dia 3 grandes livros de estudo e um plano intenso, com trabalhos de casa todos os dias.

A minha ambição? Perceber metade do que a Bia já fala em coreano fluente.

O alfabeto coreano, chamado hangul, começou a ser usado em meados do séc. XV. Antes disso era usado o alfabeto chines.


O alfabeto coreano tem 19 consoantes e 21 vogais. As letras nunca aparecem sozinhas na escrita. Têm que aparecer sempre em grupos de, no mínimo 2 e no máximo 5 letras. Isto dá cerca de 399 combinações de grupos de 2 letras, mais umas quantas combinações de 3, 4 e 5 letras (embora estas ultimas sejam raras, tanto quanto já percebi).

Exemplos:
2 letras (chá): 

3 letras (neve): 

4 letras (mês):

No curso aprendemos o alfabeto em 2 dias! Em alucinante ritmo coreano.

Leio como se estivesse de volta à primária, como indicador colado no papel e a respiração descoordenada com a fala. É o reaprender das letras, reaprender a ler. Leio mas demoro tanto que quando chego ao fim duma palavra de 4 silabas já não me lembro do que disse no início. A palavra desaparece. Leio mais umas vezes e quando tenho o som da palavra a sair de forma fluente, desconheço, na maioria dos casos, o seu significado.


No curso já fazemos ditados, desde o terceiro dia, embora as classificações não sejam brilhantes, já saí do zero que tive nos primeiros ditados. Gramática, vocabulários, regras, excepções…e em casa já consigo fazer uma frase com cabeça, tronco e membros, embora saia de forma desengonçada.


Não estou muito preocupado com as classificações da escola...a minha nota já é positiva, com o sorriso da família em casa ao ouvir-me gaguejar tentativas e diálogo em Coreano.

25 de novembro de 2017

Postais de Kyoto


À chegada…gente, gente e gente!


Organização nipónica. Linhas destintas para organizar quem, numa mesma paragem, vai apanhar autocarros diferentes. 


Os quilómetros que se andam com o lixo nas mãos, sem ter onde o colocar. Apesar disso as ruas quase passam o teste do algodão, de tão limpas que se apresentam.


Templos…


…e mais templos…


Petisquinho de polvo.


Visão de mercado. Pauzinhos de todas as formas e tamanhos, com possibilidade de cravar o nome. Boa ideia para fazer com garfos e facas personalizados.


Bicicletas para todos os gostos. Dos executivos às supermães. Faça chuva ou faça sol.


Jardins absolutamente encantados.


As gueixas já não são o que eram. Estão categorizadas mais como um elemento turístico do que outra coisa. Há as verdadeiras e há as de aluguer. As várias turistas que alugam um fato de gueixa por um dia de passeio espalham a beleza e a cor das vestimentas pela cidade…


A foto à foto. Em certos pontos turísticos a multidão é tanta e tão assanhada, que quase roubam a atenção ao protagonista.


Atenção cirúrgica na preparação da comida que é servida. Tudo conta: o prato, as cores, a disposição, os cheiros, a luz na sala. Meticuloso…


5 de novembro de 2017

Guia da refeição Coreana

Ao olhar para uma mesa de refeição Coreana o espanto é enorme! Pouca semelhança tem com a disposição da refeição ocidental e damos por nós a pensar: “como se come isto tudo?”, ou “por onde se começa?”.


Este texto serve de guia para não se passar fome na Coreia. Na realidade é muito mais difícil, mas os sabores são deliciosos…

1. Comecemos por perceber a estrutura, envolventes e alguns pontos de partida:
Para começar, sentamo-nos todos no chão, descalços, sem apoio para as costas. Para mim é, sem dúvida, o mais difícil na Coreia. Ao fim de 10 minutos tenho a sensação que nunca mais vou descruzar as pernas e que só me levanto com ajuda duma grua;

2. Os instrumentos ao nosso dispor são: 2 pauzinhos, uma colher e as mãos (na Coreia não há pudor em usar as mãos. O mais importante é que a comida chegue à boca). Durante a refeição não há guardanapos;


3. O prato individual de cada pessoa é uma taça de arroz, empapado e sem sal. Assim mesmo. E explico: o empapado ajuda a ser comido com pauzinhos (imaginemos a fome com que ficaríamos se o arroz fosse soltinho) e o arroz insosso serve para balançar o salgado que iremos encontrar no resto da refeição;

4. A sopa, ao lado do arroz, come-se durante toda a refeição. A Bia em Portugal ficou muito chorosa quando, num restaurante, lhe tiraram a sopa porque já estava a comer a carne. Choque cultural;


5. Existe um prato principal da refeição, que pode ser sopa, carne, peixe ou vegetais. No geral há muito pouca carne na refeição coreana. A não ser que o menu seja entremeada, ou intestino. Aí é carne até aos olhos…;

6. E depois há muitos pratos no centro da mesa com uma variedade ilimitada de ingredientes. Quase todos picantes e alguns muito picantes, que pegam fogo desde os olhos até ao estômago (e olhem que eu sou apreciador de picante!). Todas as pessoas se podem servir de todos esses pratos, usando os pauzinhos individuais;


7. Pode haver molhos, onde se irá mergulhar a comida antes de levar à boca. Quase todos os molhos são picantes…

8. O volume da comida costuma ser superior à soma de todos os estômagos, ou seja, sobra sempre comida. Este é um hábito Coreano que ainda faz confusão à minha mente Europeia e à minha educação! O que vale é que em casa a comida guarda-se para próximas refeições. Nos restaurantes há um desperdício chocante de comida;

9. Nos restaurantes ou em casa, para algumas ementas, parte da refeição pode ser cozinhada na própria mesa. É um ritual muito interessante, pois o cozinhar introduz a socialização na ementa, com todos sentados à mesma mesa;  



10. Para acompanhar, as bebidas. Os coreanos no geral bebem bastante. Dá um empurrão importante para romper a bolha da timidez asiática. Emergindo dum silêncio cerimonioso, riem-se, cantam e abraçam…


Principais opções das bebidas alcoólicas:
cerveja (5%)
Soju (20%)
Makolé (6%)


De um modo geral as refeições de cada um são uma espécie de “menu à medida”. Cada um escolhe o que quer comer, dos vários pratos dispostos na mesa.


Recapitulando

Desagregando a mesa principal, a área de acção de cada pessoa é isto: arroz como prato principal, sopa a acompanhar, prato principal da refeição e diversos pratinhos.


Sintam-se servidos. Agora que já conhecem os cantos à mesa, vamos comer…


Podemos ir escolhendo comida dos pratos que quisermos, buscando os nossos sabores preferidos. A sopa segue-nos do princípio ao fim. Quando o arroz termina, termina também a refeição. A não ser que se queira servir mais arroz e continuar.

O ritmo é alucinante e os pauzinhos não param. Geralmente não se fala muito durante a refeição. As conversas ficam para quando se terminar a comida, acompanhadas apenas de bebida. Quando se está no restaurante existe um botão na mesa, para chamar o empregado de mesa e não desperdiçar energia com mimicas variadas para obter a atenção desejada.


Alguns empregados de mesa não andam. Correm!


Das primeiras vezes que comi com a família Coreana, sempre que pousava os pauzinhos, perguntavam-me (através da Yumi, evidentemente) se eu não estava a gostar da refeição. Eu dizia (através da Yumi, evidentemente) que estava a fazer uma pausa para mastigar, para apreciar sabores e respirar. Nunca mais esquecerei o olhar da anciã na mesa: “estranhas manias, este Europeu”, deve ter pensado ela.

Quando dois braços precisam de se cruzar para ir buscar comida na mesa, não há tempo para diplomacias e prioridades. Criam-se níveis de alcance onde, geralmente quem vai ao prato mais longe fica por cima…e a refeição contínua, sem interrupções, sem necessidade de controlo aéreo.


À medida que segue a refeição, vamos picando dos vários pratos, bebericando a cerveja e degustando a sopa. Quando o nariz pinga e o suor escorre já é tarde para perceber qual o prato picante na mesa, ou qual deles é mais picante, pois quase todos o são, sendo que a cor vermelha geralmente é um bom indicador. Os olhos ardem, mas não há tempo a perder. Toda a gente manuseia os pauzinhos num bailado em andamento allegro com o objectivo de exterminar a comida. Devemos acelerar a respiração para compensar a acção do picante no corpo e continuar.


É que tanto quanto já vi, os Coreanos praticamente não mastigam. Duas ou três trincadelas e engolem, enquanto os pauzinhos já foram buscar mais comida. Ininterruptamente até o disjuntor estomacal disser “estou cheio, pára” e abandonam os pauzinhos.


No final a mesa parece um recinto em fim de festival, contando a história do êxtase que se viveu…


Bom apetite