2 de outubro de 2018

Expressões expressivamente expressivas


Neste regresso a Moçambique as saudades têm sido saciadas faseadamente, como se uma criança embrulhasse os seus próprios brinquedos e abrisse os presentes 2 anos depois. O meu sorriso surpreende o rosto quando por aqui e por ali volto a ouvir as expressões de ADN Moçambicano, fiéis registos da sua cultura. Expressões complexas de traduzir, mas que são pérolas para quem está por dentro da cultura…

Quando leio Mia Couto deparo-me com palavras que não existem, não vêm em nenhum dicionário, mas que naquele contexto são perfeitamente percetíveis. Aliás, se pensar bem, dificilmente haveria melhor palavra para colocar na frase, mesmo que, até ao momento, a desconhecesse. É que na falta de léxico ou de tempo para compor uma ideia de forma a nos fazermos entender, é melhor recorrer às expressões populares, maturadas e quase sempre com níveis elevados de humor.

Partilho algumas:

1.     “Se não te conhecesse, constituirias parto” . Sempre ouvi esta expressão, ou melhor, metade dela. Sempre ouvi “Se não te conhecesse…” e assim ficava incompleta a pairar no ar, deixando espaço à curiosidade sobre a 2ª parte da condição que teimava em não sair. Finalmente ouvi uma versão, e que versão! Vejam bem a dificuldade de pronunciar “c-o-n-s-t-i-t-u-i-r-i-a-s” rapidamente (sim, porque expressões demoradas dispersam a atenção do ouvinte)! O parto aqui transmite algo novo, por descobrir, que pode surpreender…

2.     “Hoje vamos beber água de pé”. Quando se prevê uma chuvada diluviana. Daquelas tempestades escuras que roncam já no horizonte, dando o último aviso para cada um se precaver, antes de atirar as nuvens com força contra o chão.

3.     “Onde há manobra, sempre há espaço”. O que é totalmente diferente de “Onde há espaço, há sempre manobra”. Deixo-vos com o prazer da análise.

4.     “Fui na tua casa e te encontrei enquanto não estavas”. Aquela que, depois de dita, nos deixa o cérebro a descodificar o seu significado e a tentar reorganizar a ordem das palavras para dar um sentido lógico. Mas no abstracto, está dito, alguém foi ao nosso encontro e…encontrou a ausência. É válido.

5.     “Hei-de vir”, que na maioria das vezes se pronuncia “Hei di vi”. É um compromisso de alguém que virá ao nosso encontro. No entanto, o cumprir da intenção é de prazo incerto. Pode acontecer na próxima meia hora, próximos dias…ou não acontecer. Por isso, quando alguém diz “hei di vi”, é sempre bom perguntar “quando?”. Não soluciona, mas pode ajudar…

6.     “O que abunda não prejudica”. Uma expressão ambígua, que dança no gume duma faca. Analisemos. Surge de imediato na cabeça a pergunta: “E se o que abunda for mau?, A expressão ainda será válida?”. Afinal de contas diz-se que tudo em excesso faz mal, até beber água! Mas se o que abunda ainda não está em excesso, o que é mau é demais e o que é bom queremos em abundância, então sim, “o que abunda, não prejudica”…

7.     “Láaaaaaa”. Expressão de medida de distância numa localização geográfica. Se for ao virar da esquina é “lá”, se precisarmos de andar 1 hora é “láaa”, se for preciso viajar de carro, então será “lááaaaaa”. A dificuldade reside no número de “a” que ouvimos e na conversão dessa escala para uma escala métrica. Quantas vezes já ouvi “láaa”, quando afinal era “lááaaaaaaa” e fartei-me de andar…


8.     “Mais ou menos normal“. Expressão que contribui tanto depois de dita, como contribuía antes de ser dita: nada. Se perguntar a uma pessoa como ela está e ela lhe responder com ar sério e cerimonioso “mais ou menos normal” a que conclusão chegaria?

9.     E a cereja no topo do bolo: “Desconsegui”. Esta expressão é muito mais do que a simples negação de “conseguir”. Quem já a ouviu, certamente percebeu isso. O “desconseguir” engloba em si a tentativa de alcançar e a frustração do insucesso. É uma expressão carregada de desalento e que dispensa qualquer interrogação, pois quem o diz, tentou bastante. Está implícito.

9 de setembro de 2018

Jogo de cintura


No fim dum dia de trabalho, no norte de Moçambique, numa casa de estadia para as equipas, tentava preparar o meu jantar. A cozinha era desconhecida e isso implica sempre algum gasto de tempo a encontrar o lugar das coisas. Mais voltas, menos voltas, 3 ou 4 tentativas e os utensílios e ingredientes estavam encontrados. O maior problema apareceu na hora de ligar o fogão elétrico. Parecia ser incapaz de o fazer e o azeite que já tinha posto na frigideira arriscava-se a ficar frio. Precisava de ajuda!

Chamei o guarda da casa, pois em Moçambique há quase sempre um guarda, ajudante ou auxiliar, como preferirem. Veio um ancião de pé descalço calejado e cabelo quase todo branco. Simpatia quanto baste, mas sem passar muita confiança. Nenhum sorriso. Expliquei-lhe o problema e ele, com sabedoria madura, disse:

- Aqui, o problema… - e eu fiquei radiante, pois ele em tão pouco tempo já tinha percebido o que se passa com o fogão – é você não saber usar o fogão!

Murro no estômago, calafrios na espinha, olhos esbugalhados! Então eu, macho latino, homem independente, pai de filhos, não sei usar um simples fogão?, pensei eu enquanto abria e fechava as mãos num gesto nervoso. Mas, digerida a fúria, a verdade é que não estava a saber usar aquele fogão e, se dependesse de mim, ia para a cama de estômago vazio. Respirei fundo e respondi:

- É mesmo? Peço então para me explicar, meu pai… - no melhor sotaque Moçambicano que encontrei
Ele esticou os braços e abriu as mãos na direção do fogão com muita cerimónia, como quem estava prestes a desvendar o mais importante mistério a seguir ao big bang.

- Você tem esta luz aqui perto do botão… - começa ele.

- Sim – murmuro eu com muita atenção.

- Quando esta luz está acesa, o fogão está apagado, não aquece.

- Sim – continuo eu, igualmente atento, pois esta instrução era fulcral para o meu jantar.

- Roda o botão e a luz apaga – continua o ancião.

- Sim – acompanho os passos todos.

- Quando a luz apaga, o fogão aquece – termina o ancião, com um sorriso inédito e com a confiança de quem acaba de dar a palestra mais importante do dia.

E era a palestra mais importante do dia, pelo menos para mim. Uma explicação dum problema aparentemente simples foi na verdade o remover dum muro intransponível, que me impedia de fritar um simples ovo! Eu fiquei imóvel, surpreendido pela explicação. Apenas consegui dirigir os olhos ao ancião e num levantar de sobrancelha disse “OK”. Acho que consigo lidar com essa peculiaridade do fogão, pensei.

O ancião saiu na maior descrição e eu fiquei sem reação sequer para o cumprimentar. Eis uma boa lição, pensei, sozinho, com os ovos na mão e o azeite a aquecer. Se tivesse insistido na arrogância inicial, tinha passado fome. Afinal era verdade que eu não sabia usar aquele fogão. Comi o jantar e fui dormir de estômago consolado.

1 de setembro de 2018

Generosamente Pedro


O destino quis levar-te demasiado cedo com tanto ainda por dizer e fazer. Resta-me aceitar e saborear as tantas e tão boas memórias que tenho de ti.



Nesta despedida física, de tanto adjetivo que se tem usado para te caracterizar, há um que foi unânime: generoso. É nele que pego para te agradecer.

- A generosidade do teu sorriso inigualável. Sorrias com todo o rosto, contagiando  boas energia e outros sorrisos;

- A generosidade que te permitia sempre ter uma palavra construtiva sobre qualquer pessoa;

- A forma generosa com que vias a beleza dum desafio do caminho, onde muitos apenas reclamavam dum trilho sinuoso e cheios de pedras;

- Quando partilhávamos alegrias, tinhas a generosidade de substituir as palavras que não te saiam pela garganta trémula com um abraço. Um abraço grande, demorado, de veludo, que tanto dizia sem uma única palavra;

- A generosidade que te afligia se não conseguias soluções humanas e simples para problemas grandes no trabalho;

- A generosidade que te deixava feliz com a presença ou a felicidade dos que amavas;

- A generosidade com que agradecias cada dia da vida, por estares vivo, por estares de saúde e teres uma nova página por escrever;

- A generosidade do discurso assertivo, de palavras ponderadas, sem rodeios;

- A generosidade de teres sempre tempo para escutar, enrolando um caracol no cabelo ou cruzando os braços na tua característica barriga e dizendo: “hhmmm”, recebendo de forma neutra a mensagem;

O mundo perdeu um grande ser humano, perdeu um poço de generosidade.

Levarei comigo, na caminhada, a tua voz, a tua paz, o teu exemplo, o teu sorriso, a tua generosidade. Tenho a certeza que tornará o percurso muito melhor.

Obrigado por ter feito parte da tua vida e termos partilhado tanto ao longo do caminho.

Até um dia, onde nos encontraremos algures para partilhar uma garrafa de vinho…

3 de julho de 2018

Um estranho em Hyenpung


Hyenpung é a zona da Coreia onde morámos durante quase 6 meses.





Zona nova, a 20 minutos da cidade de Daegu, urbanizada e pensada a régua e esquadro. Por vezes pensava que a zona tinha sido desenhada por um especialista no famoso jogo SIMCITY. Nem a floresta de edifícios de 20 andares me chocavam. A Coreia tem um pouco mais de área que Portugal, mas quase 51 milhões de habitantes. Ou seja, uma densidade populacional bastante maior que em Portugal. Assim, se alojarmos as pessoas na vertical, há mais espaço na horizontal para a circulação, espaços de lazer, zonas comerciais, passeios nas montanhas, etc…



O estranho fui eu, que em quase 6 meses, os estrangeiros que vi não me encheram os dedos duma mão. Ser estrangeiro em Hyeonpung é quase como ser uma celebridade. A grande diferença é que nunca ninguém me pediu um autógrafo ou quis tirar uma selfie comigo.

Ao apanhar o autocarro em Daegu para Hyenpung o motorista bloqueia a minha entrada. Com um ar muito admirado e tenso diz-me para não entrar, pois o autocarro vai para Hyenpung. Dá ideia que irei passar uma barreira proibida aos estrangeiros, ou talvez ele tenha medo que me tenha metido num autocarro por engano. Digo-lhe que sim, o meu destino é Hyenpung. Ele cede e deixa-me entrar, mas abana a cabeça, como se eu estivesse prestes a fazer um erro grave.

As crianças perdem a postura que as levava pacatamente para casa. Fazem sinais nervosos, chamando a atenção aos amigos para o “fenómeno”. Os sinais são universais, de maneira que quando dão as primeiras pancadas nas costas dos amigos, já eu me rio por dentro. Olham esbugalhados, incrédulos, pois as personagens dos livros da escola, que dão conta de outros países e culturas são uma realidade. Parece que saí das páginas dos estudos e deambulo como exemplar vivo do Ocidente.

Algumas crianças mais velhas tentam o diálogo em Inglês, tímidos. Ouve-se o clássico “Hello” ao que eu costumava responder “ Hello, how are you?”. Frase que os deixava logo sem fala. Não porque não saibam mais, mas parecia-me que não esperavam resposta e, surpreendidos, fugiam.

Os adultos não costumavam ligar muito. Um sorriso, algumas palavras de Inglês, às quais eu tentava responder no meu mau Coreano, eram suficientes para partilhar cordialidade.

Os mais idosos é que reparavam e muito. As avós não se continham quando me viam com a família. Ao olharem para a Bia exclamavam “mas que menina tão linda, muito parecida com o pai”. Uma observação deveras apropriada para se dizer…em frente à mãe!

Os avôs olhavam fixamente com um espanto congelado no rosto. Os que conseguiam arriscar algum inglês, com um sotaque nem sempre perceptível, diziam: “where?”, “country?”, “from?”, uma palavra que procurava satisfazer a enorme curiosidade de saber de onde vinha este Ocidental. “Portugal”, dizia eu. “Aahh”, obtinha quase sempre como resposta. Um “aahh” que podia significar muita coisa, como “longe”, ou “não faço a mínima ideia onde fica”, ou “isso é um país?”. Mas um “aahh” que encerrava a conversa, pois nem o inglês deles, nem o meu coreano dava para maiores desenvolvimentos. Acabava o curto diálogo com o meu melhor sorriso.

9 de junho de 2018

Homenagear os antepassados

Hoje trago-vos uma experiência da Coreia do Sul que me comoveu bastante. Nós em Portugal temos por hábito celebrar o 1º de Novembro homenageando entes queridos falecidos. É uma forma de valorizar os antepassados ou alguém que partiu prematuramente.

Na Coreia do Sul, o que me comoveu foi a organização e disciplina de tal evento.

A cerimónia, no passado, era feita em cada dia em que um ente querido (até à 3ª geração) tinha falecido. Além disso eram feitas cerimónias maiores, homenageando todos esses antepassados em conjunto, duas vezes por ano: na passagem do ano lunar e no dia de acção de graças. Com isto chegava-se a ter dezenas de cerimónias por ano! Como na Coreia o tempo é um bem cada vez mais escasso, e as pessoas gostam de ter vida, em muitas famílias faz-se apenas uma cerimónia, no dia de acção de graças.

Só é possível fazer esta cerimónia com uma descendência de homens, ou seja, se um casal só tiver filhas, acaba-se a cerimónia na família (sim, a sociedade Coreana é bastante machista).

As mulheres preparam a comida (hoje em dia os homens já dão uma ajudinha) durante horas a fio.

As quantidades são muitas vezes superiores às barrigas na sala, e até aos olhos todos somados! Inexplicável. Dá a sensação que a qualquer momento entrará pela porta uma equipa de futebol esfomeada para ser alimentada, mas isso nunca acontece.


No altar, estão escritos os nomes dos familiares falecidos, com caracteres chineses (país de onde vem esta cerimónia). Contam-se 3 gerações para trás e lá estão todos lembrados. Não deixa de ser emocionante que, nem que seja por um dia, por umas horas, haja a humildade de homenagear quem nos pôs no mundo e quem fez o que pôde para ir prolongando a história da família.




Os antepassados são servidos com toda a comida preparada e há um brinde para celebrar tal momento. A vénia não pode ser esquecida, nunca o é. Desde os primeiros passos na educação duma criança têm que prestar cordialidade aos mais velhos, seja na linguagem, nos modos ou na vénia.





Depois de saciados e homenageados os falecidos, é tempo de os presentes na sala comerem. A comida, como em qualquer casa coreana, abunda. É indelicado que alguma travessa termine, quando algum dos presentes ainda tiver vontade de comer. Acho que nunca me vou habituar à ideia.

Durante a refeição, não pude evitar o desviar frequente do meu olhar para o altar, sentindo que os antepassados observavam em paz a nossa refeição. Agradecia, sem os ter conhecido, de terem prolongado a família coreana onde entrei, e onde conheci a minha companheira…