4 de junho de 2019

Bushfire 2019

No final de Maio, na zona sudeste de África, aguarda-se com saudável ansiedade pelo festival BushFire, na Eswatini (novo nome dum país anteriormente chamado Swazilândia). Poupem-se ao labirinto mental de pensar na logística de mudar o nome a um país! Concentremo-nos no festival…

Cerca de 20 mil pessoas de várias origens rumam à arena do festival. Os bilhetes esgotam um mês antes e quem fica a pensar até à última hora, perde o lugar.

O alojamento em redor rebenta pelas costuras, havendo marcações com um ano de antecedência, ou seja, reserva feita no momento em que acaba a edição anterior do festival!

Uma opção muito viável é o acampamento, numa das várias áreas em redor do festival. Distam de alguns minutos a pé da festa e são, durante quase todo o tempo, uma extensão da folia. No entanto, quando chegamos e somos encaminhados para os nossos aposentos, tenho a sensação de estar num campo de refugiados.


Ideia que se esvanece assim que levantamos o fecho éclair da forte lona do abrigo. Os pormenores existentes traduzem-se num conforto total: cama, mesa-de-cabeceira e pequeno candeeiro. Não precisamos de mais. Esqueço a ideia inicial…estou em casa. O som de fundo é festa, com concertos ao longe e mais tarde com os últimos bêbados a chegar à tenda, momentos antes do nascer do sol. Ao amanhecer é a vez da sinfonia dos bebés arrancarem da cama os pais sonolentos pela festa. Na prática, o acampamento quase não dorme.




O pequeno-almoço é uma agradável surpresa, com uma panóplia de oferta gastronómica, fica bem acima de muitos hotéis onde fiquei. É também no pequeno-almoço que nos podemos deliciar com o desfile de pijamas, cabelos e pantufas farfalhudas. Hábitos culturais ou febre do festival, o certo é que estive boquiaberto a admirar, antes de meter o café da manhã à boca. Os pijamas são de polar, pois à noite a temperatura chega aos 8 graus. Mas não são simples pijamas…são fatos macaco a imitar animais, com pompons no rabo e orelhas compridas. Os cabelos, sejam naturais, sejam falsos, representam uma montra digna de concurso. As pantufas são surreais. Com motivos como leões ou pandas, cheias de pelo, passeiam indiferentes à poeira do chão. E a cereja no topo do bolo: roupão! Nunca me lembrei de levar um roupão para acampar, de facto…que falha!







Depois de divina refeição, as tendas ganham outra cor.


Eis algo que nunca me ocorreu na mente em toda a minha vida: fazer fila matinal à porta do festival e ser um dos primeiros vinte a entrar. Mas o cartaz é intenso, as crianças acordaram há 4 horas e às 10h da manhã aguardamos que abram os cadeados. 



Tudo a postos, com carrinho de bebé incluído..."Fire is my favourite colour"!



Sem pijama, mas vestida de princesa, a Bia entrega-se à atmosfera do festival…



Aqui há gente de todos os tipos. Desde o pé descalço à super produção, desde aquele que estudou minuciosamente o alinhamento e tem uma agenda dos palcos àquele que ainda nem viu o cartaz. Há quem tome o pequeno-almoço acompanhado duma garrafa de vinho, e há quem prefira o chá matinal acompanhado de poesia. Mas somos todos normais. Há uma sensação familiar neste festival que nunca senti antes.



Há vários palcos em acção, cada um com um ambiente especifico, a acontecer ao mesmo tempo. Dificil é escolher. 



O espaço das crianças, onde se pinta, pula, dança, brinca e se comem guloseimas é, a dada altura do dia, o local mais activo do festival, com os pais a quererem aproveitar tudo enquanto os seus petizes se divertem.

De dia estamos de manga curta, à noite a temperatura vai abaixo dos 10 graus. Mas ninguém verga. Entre casacos, gorros e fogueiras espalhadas pelo recinto, o foco é em curtir o ambiente e a música.



Dos concertos que vi, a minha retina ficou dividida com duas actuações, que partilho:

BlackmotionDois malucos em palco que fazem a festa toda. Fazem os foguetes, lançam os foguetes, mas as canas ficam a dançar nas estrelas. Nada nem ninguém fica indiferente. É impossível ficar parado com este som, mesmo para os pés de chumbo.


Meute: Vários homens, formalmente vestidos, com instrumentos portáteis, pois ninguém fica no mesmo sítio, parecendo terem bicho-carpinteiro na palma dos pés. Produzem música electrónica com instrumentos da família dos clássicos. Surpreendente e contagioso…

Ao sol há aulas de tambor para todas as idades.



Na arena é uma festa, enquanto a música rola. Dança-se no intervalo das actuações. Não há tempo a perder.





Obrigado Bushfire e até para o ano…

19 de maio de 2019

Prisão Perpétua ou Reforma de Luxo


O meu amigo Carlos Alberto é um exímio contador de histórias, essa herança cultural tão rica que se poderá perder pelo fast reading das redes sociais. O contar de histórias vale pelo ritual, tendo o conteúdo moral ou não, servindo mais para partilhar do que para exibir.


O Carlos Alberto tem uma positividade admirável, fazendo crer que o pessimismo é para ele uma poeira que afasta com as mãos, para lhe deixar ver o que realmente anima. Ele não só gosta de África, como África lhe corre no sangue e isso nota-se na sua emoção, tantos anos depois de sair de cá…

Da juventude dos seus 83 anos, nos dias de inspiração conta-nos histórias com tal intensidade que chegamos a ver o cenário e a sentir empatia pelas personagens. Ouvi histórias dele que facilmente categorizava como ficção, mas não, embora difíceis de acreditar, são verdadeiras, ele esteve lá. Até podemos ter ouvido uma história diversas vezes, mas paramos tudo para a ouvir mais uma vez. Como num flime que já se viu dezenas de vezes, mas saboreamos a história aguardando com satisfação “aquela cena” ou “aquele diálogo”…

Ora, um contador de histórias deste gabarito não pode passar ao lado da Tertúlia Africana e foi-lhe lançado o desafio de partilhar uma. Ele aceitou, e a Tertúlia ganhou mais um brilho. Entusiasmou-se a escrever 20 páginas manuscritas (dum possível livro seu à espera de sair) e que depois de “bater à máquina” aqui partilho. Uma história que nos traz pedaços da História.

Agora o aprendiz faz a vénia ao mestre e transcrevo o texto [Silêncio, que se vai contar uma história]:

“Queridos Amigos – vivem felizes e com gosto? (diria o meu Pai sempre que encontrava alguém que já não via há muito tempo…).Pergunto eu agora, depois do nosso André Pinheiro, na sua “Tertúlia”, me ter desafiado a recordar alguma historieta dos meus tempos de vida em Moçambique. Tempos estes que transcorreram de Fev/Mar 1937 até Mar 2016, último período em que por aí andei convivendo com esse bom Povo Moçambicano, ainda a Sacha trabalhava no Hospital Privado do Maputo.

Rebobinando agora a minha memória e andando para trás ao recordar passagens de vida (a mordedura da “green mamba” em 1941), personagens ilustres (Samora Machel em 1975, na Beira), pessoas menos ilustres (David Peter, em 1950, no seu Acampamento do Mutchira), pessoas simples (o filho David Peter Selenge, em 1977, e o filho deste, Salomão, em 2016). Fixo-me em 1973, no fim-de-semana de Páscoa desse ano (Abril – época seca) e vem-me à memória, com muita Saudade, uma pequena aventura partilhada com o Manecas (primo direito da Isabel), o Bongo (o responsável da nossa “machamba” na Beira) e o Jeepão (um Dodge, a gasolina, do U.S.Army, que veio de El Alamein, no Egito, para a Beira, trazido por um migrante italiano e comprado, em 1960, por 36 contos pagos “a três”: a minha Mãe, a minha prima Maria Helena e eu próprio. Gastava 40 litros aos cem, e a gasolina custava na altura 4/5 escudos o litro. Era o B – 5862.

Nesse fim-de-semana de Páscoa, desafiei o Manecas e o Bongo para um passeio às margens do Zambeze e, assim, na Quinta-Feira, véspera de feriado, arrancámos pela estrada de Inhaminga, que seguia paralela à linha da TZR (Trans Zambezia Railway – a única empresa privada de caminhos de ferro que conheci) - Levando mantimentos, ovos cozidos, frango assado, água, cervejas na geleira, duas armas como era hábito (uma de bala e uma caçadeira para as perdizes e galinhas de mato) e duas tendas para dormir. O motor do Jeepão, neste passeio, já não era a gasolina mas sim a gasóleo que custava 2$50 o litro. Tive de substituir o motor “Dodge” por um motor “Perkins” de manutenção muito mais barata!

Tendo saído da Beira depois do almoço, fomos pernoitar, já noite dentro, à floresta de Inhamitanga, famosa pelos seus muitos elefantes. Atenção que, a partir do Dondo, todas as estradas eram, à época, de apenas dois trilhos, em terra batida, o que significa que, para cruzar com outra viatura, tínhamos de parar e sair da faixa de rodagem. O nosso Jeepão, naquelas estradas, não dava mais de 20/30 kms/hora, e foi já perto das 20 horas que escolhemos um local, na floresta, para acampar e dormir depois de acendermos uma pequena fogueira para afugentar aranhas, aranhiços, cobras, serpentes, bichos, bichezas e…maus pensamentos…

Quatro/cinco da manhã, o raiar da aurora a despertar-nos para um novo dia encetado com um frugal matabicho de café ou chá, leite condensado, uma fatia de pão já meio duro e uma ou duas laranjas que as havia, e muitas, por aquelas terras adentro.

Decorrida uma boa meia hora, saímos da floresta e entrámos na zona pantanosa da bacia do Zambeze, rumo a Caia, uma pequena povoação, sede de posto administrativo, nas margens do grande rio…

A certa altura, deparamos com um braço estreito do mesmo, conhecido por “Zangué”, não mais de 50/70 metros de largura de água com a jangada de madeira amarrada na margem oposta. “Marinheiro, marinheiro …”, gritámos e, passado um bocado, vemos dois ou três homens saírem duma palhota (onde certamente dormiam), subirem para a jangada e começarem a movê-la, muito lentamente, arrastando os milhares de pequenos nenúfares que se multiplicam por aqueles baixios e onde se esconde toda uma imensa e variada biodiversidade, da qual os crocodilos são uma das suas peças fundamentais…
Passados 15/20 minutos, a jangada está do nosso lado e, com a ajuda de duas tábuas já muito “manhosas”, o Jeepão entra, muito suavemente em primeira, inclinando-a para o lado de maior peso. Feitos os cumprimentos, pago o serviço (não há faturas nem recibos), dado o “saguate” (para mim sempre sagrado!), aí vamos nós, já com o Sol bem alto e a fazer calor do bom…

Saídos do pontão, procuramos uma sombra para uma pausa de “sandwiches” o que só nos aparece 30/40 minutos mais tarde, à beira da estrada. Aí estacionados e olhando em redor, deparo com um velhote, carapinha branca, com ar de hortelão, agarrado a uma enxada, e trabalhando a terra à volta duns canteiros bem cuidados que, percebi logo, eram de alfaces, cenouras, feijão, couves, tomate, milho e pouco mais…

Como sempre gostei de fazer cumprimentei-o e o nosso diálogo foi mais ou menos este:

- Massôco … Uá shona? (como está? novidades ?). A “machamba” (terra trabalhada) é de você?

     - Não senhor, “machamba” é de Sr. Administrador…

     - E você onde vive? (à volta, em redor, num raio de 1/2 kms não se divisava qualquer habitação ou povoado) …

     - Nosso está preso, vive na cadeia…

    - (fiquei banzado com esta resposta…e sem palavras… Vi que havia ali história para contar)

     - Como está preso? Você está sozinho aqui, até pode ir embora e levar enxada consigo…

     - Ihhh patrão…não pode…

     - Como não pode?…não tem guarda aqui, não tem ninguém para guardar você, pode ir embora para sua casa…

     - (comecei a espicaçá-lo para aprofundar a história) …

     - Ihhh patrão…nosso não pode fugir…nosso vem aqui todos dias de manhã tratar horta…

     - Mas quem dá semente para semear feijão, tomate, couves?
     - É Sr. Administrador…

     - Mas quando Administrador vai embora e vem outro … como é que faz? … já pode ir embora ?

     - Ihhh … não pode patrão …

     - Onde está família de você?

     - Família de nosso está na Matola…já não conhece…

     - Qual foi “milando” (conflito) que você arranjou para ficar preso?   
  
   - “Milando” de muito tempo…matou gente…tempo de companhia de moçambique…

     - Tempo de Companhia de Moçambique?…não pode ser…

Comecei a fazer contas, a Companhia de Moçambique, que era majestática, com poderes de soberania, tinha tribunais privativos, cunhava moeda própria (libras), tinha polícia própria e tinha um Governador, a viver na Beira, que representava o Conselho de Administração em Lisboa. O Salazar acabou com estes poderes majestáticos em 1943 mas a Companhia continuou, embora exclusivamente, como empresa comercial…

Raciocinando um pouco mais, constatei que o hortelão, “cocuana” (velhote), ao referir a Companhia de Moçambique, como contemporânea do seu “milando”, estava a querer dizer que tinha sido julgado e condenado antes de 1943. Como esta conversa ocorreu em 1973, a conclusão a tirar era a de que a sua “prisão” já se arrastava, no mínimo, há 30 anos, o que, à face do Código Penal de então nunca poderia acontecer pois a pena máxima era de 20 anos de cadeia que, em casos excepcionais de agravamento, poderia chegar aos 24/25 anos…

Como explicar então esta situação? Explico-a da seguinte forma:

Na altura, os processos judiciais não eram digitalizados nem sequer com depoimentos gravados. As suas folhas eram cozidas à mão, com uma guita muito forte que enfiava numa agulha de sapateiro e formavam volumes, de 80/100 páginas cada um, estas numeradas e rubricadas pelo escrivão do processo. Os processos, quando findos, iam para o Arquivo do Tribunal com uma etiqueta exterior, de cartolina, onde se escrevia “Réu preso a libertar em tal data…” e ninguém mais pensava neles a não ser o Juiz Inspetor que, de 3 em 3 anos ou de 5 em 5, aparecia a efectuar a respectiva inspecção. Pode perfeitamente ter acontecido que, numa mudança de instalações do Tribunal dum local para outro, a etiqueta do processo (quem sabe se apenas presa por um “clip”) possa ter caído e desaparecido…

Acresce que, naquela época, os Indígenas condenados a penas maiores, (o Indigenato só foi extinto em 1961 pelo Ministro Adriano Moreira) tinham de as ir cumprir numa área administrativa bem longe da área da sua residência. Este hortelão terá sido enviado para a Zambézia para cumprimento da pena do Tribunal de Lourenço Marques ou da Matola …

Transferido para o Posto Administrativo de Caia, este condenado terá arranjado a profissão de Hortelão da Cadeia ou do próprio Administrador e Família. Lembro-me do velhote me dizer que não tinha ali qualquer família pois esta ficara toda na área da Matola, a 1000 kms de distância do Zambeze. Apesar de, por duas ou três vezes, lhe ter dito que ele podia ir embora, sempre me respondia, plenamente convicto: “Ihhh patrão … não pode fugir”, o que evidencia bem como ele se sentia “psicologicamente preso” a uma sentença proferida 30/40 anos antes. Estou convencido que, só com a Independência de Moçambique, em 1975, o nosso “cocuana” terá recebido Carta de Alforria das autoridades moçambicanas, e quem sabe se não terá preferido continuar “preso” por mais uns anos já que a horta, no Zangué, era o seu único e melhor meio de subsistência…

Quando, em 1974, compartilhei esta história com alguns dos meus antigos Professores da Faculdade de Direito de Lisboa que, naquele ano, visitaram Moçambique (Profs. Isabel Maria Magalhães Colaço e Dias Marques) lembro-me deles comentarem, de mãos na cabeça, “Como é possível isto acontecer no nosso Ordenamento Jurídico?!”, “Um indivíduo ficar preso quase a vida inteira!?!?” …

É que a pena até pode ter sido de apenas 20/25 anos (o que era normal para crimes de homicídio), tendo sido arrastada para além dos 30 anos por esquecimento do Tribunal que o condenou, e o Administrador de Circunscrição (assim se chamava) do Posto de Caia nunca iria soltar este condenado sem um Ofício formal, a ordenar a sua soltura, do Juiz do Tribunal que o condenou…

Após muito matutar nesta história de gente humana e face à resignação pessoal que senti existir no próprio hortelão, concluí que o título com que a encimei, “Prisão Perpétua ou Reforma de Luxo”, talvez retrate, com fidelidade, o lado negativo e o lado positivo duma vida simples dum moçambicano que o sistema colonial, então existente, fez perdurar, por muitos e largos anos, sobre uma comunidade humana merecedora de outra dignidade …

Maio de 2019 – Pias (FZZ). ”

18 de abril de 2019

Cápsula de viagem


Porquê viajar sem levar a alma na bagagem? Com as emoções presas no ponto de partida, na zona de conforto, muitas vezes o que viaja é apenas a máquina fotográfica e uma mão cheia de comparações. Chovem críticas sobre a forma como é e o que se faz. Muitas vezes num apontar de dedos ou numa gargalhada gratuita sobre qualquer coisa que choque com o hábito enraizado.

É preciso viajar por inteiro. Ser parte dos “outros” por um período de tempo que seja, com a saúde e segurança como bandeiras, pelo menos nos aspectos mais radicais. Que segurança e saúde estarão garantidas na zona de conforto? É bom provar a comida alheia, mesmo que não se goste. É enriquecedor dançar a música para a qual o corpo não esteja calibrado. É desafiante sentir temperaturas para as quais não há roupa no armário lá de casa.

É tão bom auscultar outros mundos, numa tradução de costumes, que vai além da simples correspondência das palavras do dicionário entre duas línguas diferentes. São muitas vezes explicações de costumes que desconhecíamos e que nos vão abrindo o conhecimento.

Onde viajará o barco com a âncora lançada? Quanto muito andará às voltas, ao sabor da maré! Fechados num círculo de referências únicas, que sabemos sobre o que há lá fora? Que susto deve ser quando a porta se abrir e, com a corrente de ar, fizer tombar as verdades absolutas.

Hoje em dia muito se pode viajar na net, explorando outras vizinhanças, mas existem limitantes incontornáveis: os cheiros, a vibração, o clima. E sem isso, a viagem fica seguramente incompleta. Quanto mais se viaja menores devem ser as certezas. Deixemo-nos ir em viagens pelo mundo, dentro do país, na nossa cidade, no caminho casa-trabalho-casa. Todas as viagens permitem-nos absorver muito! O saber ainda não paga imposto, por isso há que aproveitar e aprender o que pode melhorar em nós, bebendo de diversos cálices.

O surpreendente pode acontecer quando, sorridentes, à pergunta sobre de onde somos, tivermos que consultar o passaporte para dar uma resposta formal…

1 de abril de 2019

Onde se dorme

Quantas vezes acordo com a sensação de que fico a dever horas à cama? Ao abrir os olhos, apercebendo-me que já são horas de levantar, a margem de ronha diminui assustadoramente. E como eu gosto de ronha! Gosto mais de ronha do que dormir propriamente, pois posso saboreá-la. Sinto que, no tempo e no espaço, aquele é o momento onde me sinto melhor, completo. Tenho a certeza que não estaria melhor em nenhum outro lugar do mundo. Espreguiço-me para acordar o corpo que nesta altura ainda ronca.

Quando lavo a cara faço diversos planos para que naquela noite me vá deitar mais cedo e dormir mais. Esses planos raramente se implementam e o sono vai acumulando. Os sintomas dessa dívida de sono fazem-se sentir ao longo do dia, com a surpreendente visita dum bocejo, às vezes em momentos inoportunos, a lentidão de reacção e, em casos maiores, a sonolência que por vezes aparece na parte anterior do cérebro. Obrigo-me a reforçar o café e a desejar imenso a minha almofada.

Porquê ficar a dever horas à cama e não regularizar a dita dívida às prestações, com pequenas sestas? Por alguma razão é uma palavra com tantas variantes e com importância secular em várias culturas. Seja a sesta, seja a power nap, a siesta dos espanhóis, o sonegar (um compromisso de descansar de olhos fechados, mas ainda alerta), o cochilo ou o passar pelas brasas…a ideia é única: descanso a meio do dia aumenta a vitalidade no período da tarde. Os médicos recomendam…

Ora vejam exemplos desta estratégia tão sábia, que dei por mim a fotografar, com alguma inveja, confesso. Esta malta certamente não deve horas à cama. Terá a sua situação fiscal de sono regularizada...que bom! Quem precisa dum colchão ou almofada?


 Conforto com “almofadinha” e mãos entre as pernas.


 Sesta e alongamentos da coluna.


 Nem a cadeira partida o demove duma soneca.


 Se não houver espaço para deitar, cochila-se sentado…em equilíbrio...


 À vontade! Dormitório cheio de espaço…


 Enquanto não há clientes para o táxi, passa-se pelas brasas.


 AAahhhh...que bela “caminha”…



Power nap nos transportes. Quem nunca fez?

13 de março de 2019

Ciência da tradição


O que partilho aqui pode não ser unânime em Moçambique, mas fiz o meu habitual trabalho de casa e vivi de perto algumas histórias, por isso, posso dizer que, mesmo não sendo verdade em todo o país, é-o em parte.

A ideia deste texto começou quando ao ver uma mulher grávida, e perguntando: “então para quando terá o bebé”, a resposta muitas vezes era “há-de nascer”, “um dia desses”, acompanhado de um sorriso que me dizia que a conversa terminaria ali. Fiquei intrigado. Parece a previsão de chuva incerta, apenas baseada em nuvens carregadas que se aproximam.

Foi aí que percebi o óbvio: mesmo que o acontecimento seja global, as heranças culturais vivem-no de forma diversa! Tentei então perceber os meandros locais do acontecimento universal que é o nascimento duma criança.

Nestas danças de interculturalidade a minha palavra de ordem é “entender”, acima de qualquer juízo de valor ou opinião (des)contextualizada. As culturas foram lapidadas pelo tempo e baseiam-se, mais do que em factos reais, em experiências endémicas, inigualáveis.

O meu trabalho de casa foi feito com um pequeno questionário de 3 perguntinhas, amavelmente respondidas por várias mulheres, e editadas por mim:


 1. As mulheres no geral não dizem a data prevista para o nascimento. Porquê?

O sigilo é grande nos primeiros três meses, e há um motivo para isso. Por volta da 12ª semana o feto fixa-se no útero. Antes disso a vulnerabilidade é grande, por isso as mulheres não querem que muita gente saiba, para não criar expectativas ou ter que gerir desilusões e explicações, caso venha a acontecer a perda do feto. Em Moçambique, muitas mulheres não dizem nada nos primeiros 3 meses, pois acreditam que dá azar, têm receio de perder o bebé ou a sua própria vida, porque dizem que algumas feiticeiras aproveitam as mulheres grávidas para fazer maldade. Já se vê aqui a invasão da tradição na ciência, onde algumas pessoas poderão ver a invasão da ciência na tradição.

Quando as mulheres engravidam, na sua maioria devem “amarrar a barriga”. Quer isto dizer que devem consultar uma curandeira ou uma mais velha que lê as pedras. A previsão das pedras é muito importante e, ou o prognóstico é favorável, ou, se não for, incube a gestante com alguma tarefa, que pode passar por visitar a campa dum antepassado, pedindo uma espécie de bênção.

Assim, na prática, vemos a barriga da mulher a aumentar a cada semana, não havendo esclarecimento a nenhuma das nossas perguntas. Um dia a mulher não aparece no trabalho e dizem-nos “foi ter o bebé”, como quem tirou o dia para tratar de algum assunto, precioso, diga-se a verdade: o alívio de quem foi bafejado por tudo ter corrido bem…


2. No geral as mulheres/famílias querem saber o sexo do bebé? 
Ora aí está uma resposta que depende, também ela, do sexo de quem a dá.

No geral, as mulheres querem uma criança saudável acima de tudo, mas saber o sexo do bebé ajuda muito na preparação das cores das roupas e do quarto. Puro sentido prático a querer satisfazer a curiosidade.

No geral, os homens apelam ao ego, querendo um macho, que carregue o apelido por mais uma geração, até fazerem figas que nasça outro macho, e assim sucessivamente. Comentários como “Seria bom ter menino, mas se for menina também está bem.” Emana involuntariamente da ansiedade masculina em desejar um macho.

Na zona rural é mais linear. Macho significa mão-de-obra para a horta. Menina significa ter que tentar mais um a ver se sai rapaz…

  
 3. No caso de as famílias darem o nome à criança (e não os pais) a decisão baseia-se em quê?

Nalgumas famílias o nome tem grande impacto, principalmente se a mãe ou o pai passaram por dificuldades durante a gestação. Por exemplo, “mepo” significa vento em Makonde e o nome pode ser dado porque os pais passaram por muitas dificuldades. Assim inscreve-se nos testemunhos vivos as vivências familiares.

No caso de atribuição de nome a decisão baseia-se na tradição familiar, isto é, nos nomes dos avós paternos, pais, tias ou tios mais velhos. Os “defuntos é que decidem” por via da consulta das pedras se a criança deve ter nome de um antepassado ou se pode ser outro diferente. No passado, as crianças antes mesmo de nascer, já eram chamadas por esse nome tradicional, para que o antepassado a protegesse.

Imagino uma cerimónia em redor duma fogueira, evocando vários espíritos e aguardando pacientemente a decisão superior. Enquanto isso, algumas crianças, depois de nascerem, não têm nome. Assim, o “bebé” e os respectivos pais têm que aguardar…

As famílias ainda continuam a dar o nome tradicional para evitar a perda da criança. Muitas vezes associam doenças ou mal-estar da criança, com o seu nome. Se, após o nascimento, a criança ficar muito doente ou com choros prolongados, os pais/avós procuram o curandeiro de modo a evitar catástrofes. Quando este lhe atribui um nome, deve-se repetir muitas vezes à criança, com o intuito do antepassado ouvir e ficar satisfeito, em jeito de injeção de antibiótico. Muitas vezes, por coincidência ou não, a criança fica bem.

Hoje em dia ainda se preserva este ritual, mas no momento do registo os pais escolhem o nome a seu gosto. Em casa, entre os familiares, por vezes até os vizinhos chamam pelo nome tradicional. Em alguns casos a criança vai para a escola sem saber o nome de registo, só o tradicional. Mais vale jogar pelo seguro…