20 de setembro de 2012

70 MIL



Nos últimos 26 meses foram muitas as horas que passei ao volante, saltitando lugares no norte de Moçambique, rumo a locais de trabalho. Tenho conhecido os vários pós das picadas, aprendido como bailar o carro nas diferentes lamas, tentado esquivar aos muitos buracos e deliciado com os quilómetros de bom alcatrão que já se apanham. 

Nunca são estradas fáceis, sempre com muitos obstáculos. Sejam crianças que fazem da estrada a extensão das suas brincadeiras, sejam cabritos galinhas, ovelhas ou porcos que passeiam livremente, sejam troncos deixados na estrada em sinal de aviso para uma avaria mais à frente. A atenção tem que ser a 200% e, claro está, o cansaço no final é o dobro.  Tenho a sensação de que se voltar a conduzir numa autoestrada sofrerei de tédio e corro sérios riscos de adormecer!



Nestes últimos 26 meses percorri cerca de 70 mil quilómetros, o que dá uma média diária de 90 Km por dia, TODOS OS DIAS! No entanto tenho direito a fins-de-semana e mantenho a vida pessoal. Assim, fintando as estatísticas, posso fazer 700 Km num dia e ficar bem relaxado à beira mar com uma cerveja na mão noutros dias...

A distância parece assustadora. Daria quase para dar duas voltas ao mundo pela linha do equador, ou percorrer 28 vezes Portugal, pela linha de fronteira! Mas a verdade é que o circuito é mais reduzido (cerca de 3300 Km), não se estende para além do norte de Moçambique e já pouco muda. O que acontece é que o faço várias vezes, repetindo vários troços.




Considero um número notável, atendendo ao mau estado geral das estradas e ao aparente bom estado das minhas costas. Também me considero privilegiado quando chego a casa, me deito no estúdio de massagens da Yumi e a deixo recolocar no sítio devido as peças, à solta nas minhas costas.

Já vi o nascer do sol em Pemba e o pôr-do-sol no lago Niassa (não no mesmo dia, embora seja tecnicamente possível). Posso orgulhar-me de ser o único elemento da equipa que visitou todos os locais ativos de trabalho e conhece, nem que seja de vista, a maioria das equipas (que já somam algumas centenas de pessoas).



Em Quelimane realço a arquitetura característica e os arruamentos tão geométricos que até a mim me desorientam! Os mosquitos lá não picam, mordem, ferram com dentes afiados através da roupa.








Em Monapo vejo o exemplo. Dos 15 locais de trabalho este é o único que continuaria de forma autónoma se o projeto terminasse hoje. É inacreditável, é triste mas é assim. Parabéns a Monapo onde a equipa local assumiu os trabalhos como parte das suas tarefas. Percebeu bem o potencial e importância da iniciativa e hoje com o mínimo de ajuda são eles que gerem as metas, as equipas, os problemas. Um exemplo!

Em Malema é a produtividade que contagia. Terra fértil, regada por inúmeros canais e gente que dedica uma vida à agricultura, muitas vezes feita com pouco mais que uma enxada. Aqui faz-me mais sentido do que nunca atribuir o documento que lhes dá segurança da terra.




Em Mocimboa vejo uma preguiça endémica a ser agitada de forma brusca, acordada a baldes de água fria motivados pela exploração de gás natural um pouco mais a norte.



Cuamba a mim parece-me um lugarejo encravado entre o longe e o distante. Cidade onde não se encontra estrada de alcatrão. Nem lá, nem num raio de 100km, deixando os acessos penosos na época das chuvas. Tem comboio que traz e leva mercadoria de Nampula, tem produção agrícola sim, mas a mim parece-me um local esquecido. Talvez não esteja a ser justo, mas é assim que vejo Cuamba.


A vila de Metangula, à beira do Lago Niassa, um dos grandes lagos do vale do Rift, é o extremo oeste deste circuito. Pacata, simples, mas com uma riqueza incalculável: uma reserva gigante de água doce! Local onde as pessoas levam o gado a beber, onde se lavam, lavam roupa e loiça, onde se pesca, ou simplesmente se retira água potável para casa.


Em Lichinga é incontornável falar do frio! Localizada num planalto, a 1300 metros de altitude, obriga o uso de luvas e casacos fortes nos meses mais frios (meses sem “r”). Como não tenho nada dessas indumentárias em Pemba, tenho que inventar, sobrepondo camisolas finas, na esperança que façam uma camada grossa e mantendo as mãos nos bolsos quando não preciso delas!



De Pemba haveria tanto para falar, mas uma única coisa realço: se tivesse que escolher um único local, entre estes todos, para ficar a viver, seria certamente Pemba! Felizmente vivo cá...




Em Mecufi compro peixe fresquíssimo diretamente das canoas dos pescadores, que regressam nas marés cheias. Além disso a praia de Mecufi encanta-me, sem motivo...




4 de agosto de 2012

Festival do Ibo



A chegada à ilha do Ibo só se pode fazer duas vezes por dia, nas marés cheias! Nas marés vazias a água foge e só deixa a descoberto uma extensa área de mangal. Os barcos não conseguem chegar perto, nem dum lado, nem de outro.



Quando a água sobe e, à falta de um pontão, caminha-se até ao barco, gingando por entre o lodo que nos vai massajando os dedos dos pés. Dependendo da maré e da fase da lua molhamo-nos mais ou menos...mas garantidamente teremos água, pelo menos, até aos joelhos. Da última vez foi até às coxas, obrigando a uma gradual passagem dos pertences dos bolsos dos calções para cima.


 


O barco faz parte da carreira normal de transportes e leva de tudo: cabritos, motas, combustível, comidas. Fica ainda espaço para pessoas e bagagens... 

Em linguagem técnica posso garantir que o barco viaja seguramente com calado máximo. Mas não é alarmante porque geralmente existe um membro da tripulação cuja função é tirar água do barco com um balde, do princípio ao fim da viagem!




Um ano e meio depois de termos estado no Ibo, duas observações:




Algo que se mantém: a navegação lenta e elegante dos barcos à vela na beleza dos mangais ao pôr-do-sol, ao nascer do sol ou durante o dia, ornamentados com a variação das nuvens e iluminações.




Novidade: electricidade! Até há cerca de seis meses o Ibo vivia à base de geradores ou em absoluta escuridão na sua ausência. Agora há iluminação pública...um feito que, inevitavelmente, vem mudar a vida das pessoas e da própria ilha...

Era fim-de-semana especial, pois festejava-se o dia do Ibo. A confecção da comida pode levar à vontade hora e meia, mas em vez de reclamar, tem que se criar estratégias de espera...e ajuda muito!




Quando a comida chegou demos a espera como compensatória. Caranguejo com uma matapa deliciosa e xima a acompanhar.




As joias do Ibo são uma arte local e tradicional que dá gosto ver. Com métodos bastante artesanais e uma paciência invejável fazem, posso dizer, obras de arte em prata. 


Seja a preparar a solda em cada pedaço minúsculo, seja a fundi-los ao sabor do sopro ou a, no quadro final, encaixar todas as peças para dar colares, brincos, anéis, etc... É feito pelos mais velhos e poucos são os jovens a pegar na arte!



Em dia de Ibo nada melhor que ir à bola. Era dia de derby: Desportivo do Ibo contra Desportivo de Mocimboa da Praia. Foram até estes últimos a começar melhor, marcando um golo e gelando as bancadas. O campo é rodeado de palmeiras e a relva está em razoável estado.  


A massa de adeptos ia puxando, puxando até que a equipa da casa reagiu e marcou. Tensão na parte final do jogo com um empate a 2 bolas. O lance que deu o terceiro e vitória à equipa da casa foi quente e infelizmente não consegui ver, seja pela multidão que tinha à frente, seja porque os ecrãs gigantes não estavam para passar a repetição.


Sei que o homem que fez o golo foi expulso e orientado, tanto pelo árbitro, como pelo treinador, a recolher aos balneários. Mas os adeptos não deixaram! Pegaram-lhe ao colo e passearam pelas bancadas e parte lateral do campo, mostrando o herói da tarde...


A regata de São João, um momento delicioso que celebra o dia do Ibo, é feita com barcos tradicionais, à vela, chamados dáus (numa adaptação pessoal da palavra). Barcos que estão habituados a outros ritmos e competições, nas rotinas pesqueiras, preparam-se a preceito. Nos dias antecedentes levam uns retoques de pintura e arranjos na estrutura do mastro. No dia da prova carregam-se sacos de areia para aperfeiçoar a aerodinâmica.





Audiência fora e dentro de água, com manifestação de alegria por parte de peixes saltitantes a atropelarem-se para conquistar os melhores lugares...




Ao sinal de partida começa a cerimónia. Içam-se as velas e numa marcha lenta e silenciosa ali vão os dáus galgando as ondas e lutando pacificamente pela liderança.  Mas esta “simples” chegada obriga a uma mudança brusca de direcção...o que na navegação ao vento quer dizer baixar as velas, mudar leme e pessoas para contrapeso, parar quase por completo o barco, içar novamente as velas e arrancar para a meta. Este pormenor faz da regata de São João uma corrida com todos os ingredientes, incluindo uma acesa disputa na recta final.





Andam até uma bóia colocada no mar e regressam. A meta é na praia, para que não haja subjetividade dos juízes. Mas esta “simples” chegada obriga a uma mudança brusca de direcção...o que na navegação ao vento quer dizer baixar as velas, mudar leme e pessoas para contrapeso, parar quase por completo o barco, içar novamente as velas e arrancar para a meta. Este pormenor faz da regata de São João uma corrida com todos os ingredientes, incluindo uma acesa disputa na recta final.


À noite tivemos o prazer de ver a dança de Mapico, tradicional entre o povo Maconde, do norte de Moçambique. Uma dança que só pode ser feita por homens. Acompanha uma orquestra de tambores furiosos e violentos que provocam à dança o homem e a máscara. O homem joga com as pernas ao som do ritmo e, por seu lado, também provoca os rufos a outras batidas. É firme nas pisadas que dá no chão e o corpo parece ter partes independentes. Volta e meia aproxima-se, inexpressivo, e dança à nossa frente de forma frenética. A máscara é estática, claro! Olhos esbugalhados com uma ponta preta a simular a iris. Demasiado artesanal para parecerem verdadeiros, mas deixam-nos a pensar e às vezes damos por nós a fitá-los. Boca aberta com os dentes separados e umas pinturas no topo que fazem o couro cabeludo. Algumas têm cabelos verdadeiros e dentes de esmalte. É aí que, a meu ver, as máscaras passam a fronteira do entretenimento e exploram outras crenças, em que não acredito, mas respeito


Os motivos da dança podem ser simples, ou mais complexos, desde a época de colheitas, ritos de iniciação ou o chamamento de espíritos antigos. Estes últimos são geralmente feitas à noite e proporcionam um assustador rufo de tambores e coros a acompanhar. Nunca tive oportunidade de ver, nem sei se quero ter. Por uma única vez (em 2000) ouvi uma cerimónia do género e ainda hoje me arrepio quando me refiro a ela. A mim parecia-me o ronco dum vulcão, cuja a luz trémula também se via, vinda da cratera da cerimónia...



21 de julho de 2012

Peixe ali



A nossa praia é daquelas que, aquando da maré vazia, a água foge para longe. Deixa a descoberto uma manta com dois retalhos de que já vos falei: uma zona de rochas onde tudo está vivo e bancos de areia paradisíaca. Caminhei uma destas manhãs até encontrar água à profundidade suficiente para nadar. A profundidade aumenta onde começa o canal da 3ª maior baía do mundo, de modo que me obrigou ao labirinto das rochas e areia. Depois de nadar fiquei naquele caldo de água salgada a gozar o sol e o silêncio em redor. Não se avistava ninguém.

Entrou-me pelo canto do olho numa imagem: sorridente e vermelho! Um tipo muito simpático que se apressou a cumprimentar. Trazia, como já disse, um sorriso enorme e contagiante. Além disso vestia como se estivesse a passear numa qualquer cidade mundial. Calças de ganga, uma camisola de basket dos EUA e um boné quase novo, vermelhão! A tiracolo uma bolsa de pano que não condizia com a intenção, quando saia de casa, de vir ao mar. Estava molhado até às coxas. Levei algum tempo a enquadrar aquela personagem naquele local...como quando se veem aviões ao fundo nos filmes de cowboys.

Nas mãos uma lata de BAYGON que servia de carreto de pesca para um fio de anzol que lançava. À minha pergunta de “estás a pescar o quê?” ele responde “peixe”, quase sem desmanchar o seu sorriso. Era um sorriso um pouco eufórico. Agradável de se ver, sincero, mas por demasiado tempo. Não se desmanchava por nada! Talvez motivado por algum estado de alcoolémia alterado, ou outro estado, mas um sorriso positivo. Depois mostrou-me o isco. Camarão pequeno seco, dentro dum frasco já muito usado e guardado no bolso firme das calças.

- Está bem é peixe, mas que tipo de peixe?, perguntei

- Aquele peixe ali..., e apontou na única direção possível de ter peixes, o mar, otimista no peixe que desconhece, mas que acredita ir apanhar. Ainda com o mesmo sorriso confirmou acenando a cabeça, demorando-se com o braço levantado na indicação do local.

2 de julho de 2012

Mistério musical*


Há para mim vários mistérios na vida. Uns tento resolver, outros não. Preservo-os assim mesmo, misteriosos, sem solução. Dá-me gozo que assim seja, abstraindo-me da problemática de os entender e fugir à solução. É parecido à satisfação que se tem quando se veem as marionetas a mexer e se ignoram os fios...
Um desses mistérios é a música. Como aparecem as notas musicais, o porquê das oitavas? O que motiva um compositor a escolher dó-lá e não dó-mi? Mas apesar disso admito que cada nota debita vibrações diferentes.

A minha incapacidade para a música revelou-se desde cedo, desde os meus tenros 4 anos. Numa festa natalícia que o infantário apresentava para os pais desafinem tanto, entrei tão mal na música que fui presenteado com uma alcunha que ainda hoje perdura...

Na escola secundária fugi às aulas de religião e moral e optei pela música. Tinha o sonho de ser bafejado por Apolo, o Deus da música. Depois, na verdade, chumbava nos testes onde os outros alunos discutiam décimas do 18 para cima. Nas aulas práticas fazia um playback descarado com uma simples flauta de bisel na mão. Enchia as bochechas de ar e não me atrevia a soprar para não estragar a banda escolar que contava com bateria, flauta transversal e órgão. Deitava um olho ao meu colega do lado, igualmente com flauta de bisel, e imitava os dedos. Acrescentava um saltitar de sobrancelhas e uma inclinação esporádica da cabeça e aí estava eu, convencido de que passava despercebido. Saía das aulas contente e, confesso, com satisfação rebelde por estar a enganar o professor. Hoje sei-o, é óbvio, que o meu professor me topou desde o primeiro dedilhar em playback. Mas assim como eu não queria propriamente tocar ele também não queria propriamente ouvir-me. Assim, passados os anos, percebo que havia uma cumplicidade a meu favor e que o professor percebeu muito antes de mim, que eu não era talhado para a música. Simpaticamente fez-me passar nos testes para que eu não chumbasse numa cadeira facultativa!

Não sou moldado para produzir música, mas gosto muito de dançar ao som dela e nesse capítulo deixo-me levar pela sua magia. Ora vejam o mágico efeito da música nestas crianças que não devem ter mais do que 4 anos.

Atenção ao menino de camisola laranja e a menina de saia amarela e...quase sem t-shirt...



VIDEO: Yumi Choi


*para a animar a semana da minha amiga Cláudia Marques Pires...

16 de junho de 2012

Cadastro de terras

A terra é propriedade do estado e não pode ser comercializada: assim diz o artigo terceiro da lei de terras em vigor em Moçambique. Apesar disso, as pessoas ocupam naturalmente a terra. Ocupam mas não têm posse dela, apenas possuem o direito de a usar. Direito esse que sim, se negoceia, compre e vende. É um conceito usado nalguns países, com um fundamento teórico de grande de valor: a terra a quem a trabalha. Quem não faz nada com a terra perderá o direito a ela...
Aqui se baseia o meu trabalho: quem está onde a fazer o quê? É uma espécie de Big Brother em forma de mapas, mas que constitui uma base de informação poderosa e necessária a qualquer intenção de gestão de terras. Os dados recolhidos podem ser usados para muitos fins, dependendo das vontades políticas. Os trabalhos estão a decorrer no norte de Moçambique e prevê-se que durem até meados de 2013.


A recolha dos dados propriamente dita é uma das componentes que ferve neste momento. Porta a porta, parcela a parcela, entrevista, medição e testemunho. Simples e eficaz. O público-alvo é muito claro: milhares de pessoas que estão a viver e usar determinada terra, mas sem qualquer documento que os relacione com o espaço. É normal que se perguntem “mas então como se saberá quem é o legítimo dono?”. Sabe-se por duas fontes:

-Testemunhal: instrumento cuja origem se esquece com o tempo e que ainda hoje           serve, sendo fundamental, em várias situações;

- Ocupação pacífica do solo: situação abrangida pela lei e que prevê que se alguém ocupa de forma pacífica um terreno, por determinado tempo, ganha direito aquele terreno, passando a ser sua posse (ou o terreno ou o direito, dependendo do país). Em Portugal chama-se usocapião e o prazo é de 25 anos. Em Moçambique chama-se de ocupação de boa fé e bastam apenas 10 anos.


O assunto é sensível. Entramos nas casas das pessoas, às vezes em equipas de 6, perguntamos coisas, medimos os limites e vamos embora. Qualquer um concorda que não é fácil! Daí a importância de sessões prévias de esclarecimento. Seja em Português ou na língua local, a mensagem tem que passar. Conta-se com pessoas influentes da zona que, para além da estrutura administrativa, inclui os chefes locais. Várias são as iniciativas. Pode começar com cânticos para afastar o frio inicial e dar vós à população. Depois é como dá: exemplos, menções a lições estrangeiras, troca de experiências...

Pemba, 24, Agosto, 2011

Pode-se recorrer à expressão teatral, improvisando um texto, com tradutor ou não. Exemplifica-se o que se vai fazer a cada porta, para que o(a) proprietário(a) esteja alerta quando a equipa chegar. No final há ainda um apelo à colaboração de todos para que tudo corra conforme e seja mais facilitado o processo.

Cuamba, 25, Fevereiro, 2012

Cuamba, 25, Fevereiro, 2012

Mocimboa, 16, Abril, 2011


Mecufi, 1, Fevereiro, 2011


Muitas das pessoas olham com espanto para a antena GPS, ou mais corretamente, GNSS (Global Navigation Satellite System). Mas rapidamente divagam em hipóteses do que aquilo pode ser: máquina fotográfica, polvilhador, arma para os pássaros, enfim, muita imaginação. Demonstra-se (tanto quanto se pode ultrapassar a sua leiguice) e dá-se o tempo que quiserem para observá-lo.

Mas no que toca a perceber o valor da posse de terra, a experiência ensinou-me, não há escolaridades, cores, religiões nem idade que se sintam perdidos. O valor da terra é bem conhecido, e no caso de agricultura, é dela que vivem sem hipóteses de usar o supermercado para compras de recurso. 

Mecufi, 13, Novembro, 2010

Em ambiente rural é onde fico mais impressionado. Os responsáveis dos terrenos caminham decisivos, descalços, afastando o mato cerrado. À volta só vejo vegetação, ficando muito difícil para me orientar, mas para eles não. Param, levantam a cabeça para alinhar árvores que eles conhecem, apontam para o chão e dizem: é aqui. Nem por um momento me passa pela cabeça duvidar e nada mais nos resta do que ficar boquiabertos e medir as coordenadas...

Malema, 16, Maio, 2012

Em ambiente urbano chega-se a discutir 20 cm de terra, porque o muro tombou ou porque a vedação está torta... Uma vez era uma senhora que nos ouvia com muita atenção. Não mexia a cabeça em sinal nenhum, mas estava a colaborar. Quando lhe pedimos para ver os limites, começou a andar...em direção à rua. Ia-nos olhando pelo canto do olho e andava. Quando chegou ao meio da rua indicou-nos o limite com o indicador. “Minha senhora, aí não pode ser, está no meio da rua!”, dissemos. Ela então recuou calmamente, com a mesma expressão e, junto à casa refez o limite. Medimos e fomos embora. 

O GNSS anda pelos labirintos, incansável, a medir tudo o que lhe pedimos. Seja engolido por capim, atravessar rios, com vista para o mar. Há também os locais quase inacessíveis, em áreas urbanas, onde alguém planeou mal o telhado e nos obriga a uma ginástica diária.

Pemba, 30, Julho, 2011

Malema, 16, Maio, 2012

Quelimane, 24, Março, 2012

O cadastro de terras, valor reconhecido de gestão de território, não é tão elementar quanto parece. Estima-se que, em todo o mundo, apenas 25% da terra está formalmente registada. Poucos são os países com cadastro de terras completo. Na Europa estima-se que pouco mais de meia dúzia o tenham o cadastro completo e funcional.


Não é que seja obrigatório registar a terra, diga-se, mas é muito importante. Um ser humano não deixa de o ser se não tiver bilhete de identidade, mas abrirá mais portas se o tiver. O que já fizemos aqui é sempre pouco, mas é alguma coisa. O esforço que se faz constrói uma ferramenta informativa e visual de grande valor em várias frentes de ideias: melhorar a circulação dos bairros, construção de melhores condições sanitárias, dinamizar o comércio e dar a conhecer a cultura, artesanato, serviços, assim como apoiar as transações dos ditos direitos. A área que já registámos, de aproximadamente 39 Km2 daria para conhecer cada centímetro da cidade do Porto, ou metade da ilha de Manhattan... Estamos agora com cerca de 76.500 parcelas registadas em 4 províncias. Um feito notável, que parece chamar a atenção dos órgãos de comunicação social.


CERCA de 17 mil pessoas nas províncias de Nampula, Cabo Delgado, Niassa e Zambézia já possuem o seu Direito de Uso e Aproveitamento da Terra (DUAT), como resultado dos serviços oferecidos pelo Projecto de Acesso Seguro à Posse da Terra, no âmbito do processo de regularização da posse de terra, financiado pelo MCA-Moçambique e implementado pela DNTF -  Direcção Nacional de Terras e Florestas.” Maputo, Segunda-Feira, 11 de Junho de 2012:: Notícias


Sendo, em princípio, uma mera medição de terra, muito se envolve com a parte social e com particularidades culturais. Mal entendidos, mensagens mal passadas ou crenças tradicionais, podem-se colocar no meio do trabalho.

Num dos locais as pessoas não percebiam o que era isso da sua própria terra. Estavam todos convencidos que viviam em terrenos cedidos pelos colonos e, com muito respeito, aguardavam o dia em que a teriam que devolver. Desmistificada esta ideia em reunião pública, rompeu na sala uma comovente orquestra de palmas e cânticos.

Noutro local as pessoas entrevistadas não sabiam o nome dos conjugues, mesmo que casados há anos. Podemos perceber que nalguns casos raros (e estranhos) isso poderá acontecer nos primeiros meses do acordo matrimonial, mas às tantas torna-se uma informação impossível de ignorar! Sendo informação importante tendo em vista a cotitularidade, a partilha do uso do terreno, as equipas começaram a ficar confusas. O fenómeno continuava e os inquiridores ouviam por muitas vezes “oh marido, qual é o teu nome mesmo?”. Averiguado o fenómeno descobriu-se que aquelas pessoas acreditam que se disserem o nome do conjugue isso trará problemas para o casamento. 

Mocimboa, 13, Abril, 2011

Durante a formação às equipas de campo também os desafios são muitos. Numa dessas formações, falei para uma audiência aparentemente atenta. Fitavam-me meneando a cabeça em sinal afirmativo. Eu prosseguia, mas os olhos deles iam arregalando. Ao fim de 40 minutos veio o golpe. Interromperam-me o discurso com a intenção de falar. “Vão colocar uma dúvida”, pensei. Hesitantes, disseram: “senhor, não estamos a perceber nada!”. Podem imaginar a sensação! Mas confesso-vos, aprecio mais uma golpada destas, fria e frontal, do que gente hipócrita que não interrompe e vão para casa baralhados e sem aprendizagem. Ali só tinha duas hipóteses: ou estrangulava o meu ouvinte (vontade que me soprou o pensamento) ou exercia o jogo de cintura e resolvia o entrave, fosse qual fosse. Depois de 5 minutos de troca de ideias surgiu a solução, que resolvia um problema linguístico. Uma única expressão em língua local desbloqueou tudo e abriu a janela ao entendimento. Ainda hoje essa equipa trabalha connosco e registaram a sua própria aldeia, com mais de 1700 parcelas. 

Nampula, 28, Março, 2012

No final de todo este processo cada parcela recebe um título, que aqui se chama DUAT (Direito de Uso e Aproveitamento da Terra). Documento que, pela via clássica, poderia levar 2 anos a ser tratado e poderia custar mais do que muitas bolsas permitem. No âmbito deste projeto o documento não leva mais do que alguns meses (teoricamente 2 meses) e custa ao titular uma fotocópia do seu documento de identificação. Na posse deste documento o direito ao uso da terra é melhor reconhecido pela lei, o titular pode pedir empréstimo para construção ou poderá vender e quem comprar saber bem o que compra. Neste momento entregámos cerca de 17 mil títulos e muitos mais virão...

Mocimboa, 12, Abril, 2011

O grande objetivo é pormos nos carris um LIMS (Land Information and Management System) que em português se traduziu para SGIT (Sistema de Gestão de Informação da Terra). Seja qual for o termo esta é uma ferramenta fundamental para valorizar todo o esforço feito. Armazenará milhares de parcelas de informação; fornecerá estatísticas com alguns cliques; ajudará a saber as áreas que estão ocupadas ou livres; e vai permitir facilitar a impressão de documentos oficiais.

Mocimboa, 20, Julho, 2011

Maravilhoso, diriam. E eu também. Mas a dificuldade é colocar um sistema demasiado automático em hábitos mais conservadores, onde os levantamentos têm sido feitos nalguns casos, a fita métrica, ou GNSS de baixa precisão. Os processos não passam do papel e a informatização nem sempre é uma realidade.

Mecufi, 06, Julho, 2010

Posso-vos dizer que já houve anteriormente uma iniciativa semelhante. Por razões que ainda desconheço e já nem pergunto, não funcionou. A minha expectativa é conseguirmos, claro. Sabendo das dificuldades mas dando o nosso melhor (desculpem a banalidade da frase, mas saíu-me...não me apetecem rodeios). Quero, no final deste projeto, ver uma máquina de gestão de terras para a qual contribui e da qual aprendi muito.

Centenas de pessoas estão a ser formadas em várias frentes (campo, gabinete, componente processual, administração de terras, etc). Milhares de pessoas foram beneficiadas com um precioso documento que lhes atribui legal direito de uso da terra. No entanto a cobrança de taxas sobre o uso e transação da terra é um capítulo adormecido. Seria essencial para colocar o registo local de terras a rolar de forma autónoma em cada local. Assim me pergunto muitas manhãs, em frente ao espelho, qual a solução se não houver sustentabilidade e este tipo de iniciativas ainda depender de financiamento externo?