2 de abril de 2020

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!!MARAVILHA!!


19 de março de 2020

Poligamania

Grande parte dos homens Moçambicanos vangloria-se por ter 3 ou 4 mulheres. Têm a que chamam de “principal”, ou por outras palavras, a de casa. Depois têm namoradas fora do lar, às quais dedicam parte do seu tempo, tão pouco quanto o maior número de namoradas, acredito.

O nível de envolvimento entre o homem e as namoradas externas ao lar muda em função de diversas variáveis, levando um relacionamento de pura diversão, comprometimentos mais sérios (embora não formalizados) até, por vezes, ao nascimento de crianças (por vezes formalizados).

Não fique a pensar que é tudo diversão e que o homem comporta-se levianamente em busca de prazer, como cheguei a ouvir em Angola: “Fazer o quê? A pilinha dá para todas…”, imbuído de uma generosidade inconsequente.

Os relacionamentos secretos dão trabalho. Imagino o stress que é gerir agendas, percursos, perfumes, mensagens no telemóvel, amigos em comuns ou datas importantes. É assunto que me cansa só de pensar.

Há casos em que os relacionamentos são públicos, e todas as mulheres sabem da existência uma das outras. Aqui o factor de gestão de tempo fica suavizado, de facto.

Mas em ambos os casos, o factor custo é grande. Como gerir a despesa para as diferentes mulheres? Em vez de um presente, oferecem-se 3 ou 4? Tudo a multiplicar?

Ao pensar neste assunto calculei que a população de mulheres em Moçambique fosse 3 ou 4 vezes maior que a população de homens, ingenuamente considerando que não havia “conflito de interesses”.

Mas constatei que não. Há mais mulheres que homens, sim, mas quase na mesma proporção!

Então, partindo do princípio que “cada tacho tem a sua tampa”, ou seja, que todos nós temos direito a um par para partilhar o amor, há aqui uma intensa prática de poligamia, mas em ambos os lados da questão. É que a palavra poligamia, divide-se em outras duas:


poliginia, em que um homem tem várias mulheres, 


e a poliandria, em que uma mulher tem vários homens.



Assim, há vários tachos com diversas tampas, mas também há muitas tampas a servir vários tachos. Em linguagem informática seria o famoso “N para N”. Em linguagem social é a rebaldaria.

Fica evidente que, enquanto uns falam muito, as outras não dizem nada, mas todos o fazem.

Nos tempos que correm, acrescido a este frenesim de poligamia, há diversas variantes do amor que baralham a estatística clássica.


Seja qual for a opção, seria bom que prevalecesse o respeito e o amor….

13 de fevereiro de 2020

Restrição de água

A notícia chegou pelas redes sociais no Sábado de manhã, e depois confirmada num comunicado oficial.

A ponte que sustenta os tubos de abastecimento de água às cidades de Maputo, Matola e Boane (mais de 2 milhões de pessoas) cedeu e a canalização foi interrompida. A previsão era de 10 dias sem água, ou com muitas limitações de abastecimento. Faziam-se apelos à poupança de água. A foto que acompanhava o comunicado confirmava a terrível notícia.


Depois do pensamento “que chatice”, fui visitado por uma reflexão: “Estarei preparado para viver com restrições de água?”. Porque embora tenha uma preocupação geral e antiga de poupar água, só quando a palavra “restrição” se junta à sua distribuição é que me apercebo que posso tomar duches mais curtos, racionalizar o autoclismo, tornar a lavagem da loiça mais eficiente. Ainda não aplico a reutilização da água, mas é um plano que tenho cá para casa, como por exemplo a água do banho ainda servir para alimentar o autoclismo.

Viajei assim numa possível previsão pessimista de restrição mundial de água (já estivemos mais longe)! Um cenário que vai obrigar certamente a uma reeducação de uso de água para mudar os nossos hábitos.

Mas enquanto isso não acontece e a solução (ainda) estiver ao alcance, veremos as carrinhas de distribuição de água a invadir as ruas das cidades, como aconteceu em Maputo nessa mesma tarde de Sábado.


Assim, os tanques voltam a encher numa tentativa de contornar a tal de restrição. Não coloquei esta hipótese cá para casa, pois com a grande demanda à água a especulação deve ter sido imediata.

Ao consultar a previsão meteorológica para os próximos dias, sorri! Agradeci a São Pedro por ser tão generoso e no momento tão oportuno. Chuva abundante durante 4 dias significaria que haveria água para todos, bastava aproveitar. 


Cá em casa orientamo-nos para captar a água da chuva em baldes e alguidares, para atenuar a tal da restrição…afinal ela caía de forma gratuita do céu e precisamente no período crítico.

Não tirei nenhuma foto, mas fui presenteado com este vídeo, feito em Maputo, por uma senhora que desconheço, mas à qual quero saudar pela sua "tecnologia" feita com astúcia, proactividade e visão. Com uma engenharia simples, garantiu água para os serviços básicos certamente.




Que continue a chover, contrariando assim uma tendência (cada vez mais real) de falta dela nalguns locais. E que a saibamos aproveitar…
  
No final de contas, a situação não tem sido assim tão má (sim, no momento que vos escrevo ainda estamos com restrição de água). O abastecimento tem sido feito alternadamente nas diversas zonas da cidade, contando com água a cada 2 dias que, com o sistema de depósitos e bombas de que vos falei, nem se nota a falta de água nas torneiras.



Fica registado o acontecimento como uma premonição de cenários mais difíceis que possam vir. Fica feito o exercício de sobrevivência e o aviso sério de que poupar água é o caminho.

28 de janeiro de 2020

Mão esquerda

Ao pagar a cerveja, abro a carteira com a mão direita, tiro a nota com a mão esquerda e assim a entrego, num gesto rotineiro. Enquanto saboreio o primeiro gole, a empregada do balcão traz o troco na mão direita. À minha frente, faz questão de passar o dinheiro para a mão esquerda e dizer-me, com alguma ira: “desculpa a mão esquerda”.

Fiquei sem perceber o que aconteceu ali. Porque razão ela passou o troco para a mão esquerda, para depois me pedir desculpa precisamente pela mão esquerda? Imagine-se uma pessoa na rua que nos dá propositadamente um encontrão e depois de forma mecânica pede desculpa a seguir. Alguma coisa se passa. Ou a pessoa não bate bem da cabeça, ou há uma tentativa de passar alguma mensagem. Escolhi a 2ª opção.

É do senso comum não atirar o dinheiro a ninguém, não é sério dar dinheiro a menos a contar com alguma distração, mas qual a questão com a mão esquerda? Haverá “mão certa” e “mão errada”?

Naturalmente, inquieto curioso, fui investigar.

Nas escolas em Moçambique os canhotos sofrem, porque “não fica bem” escrever com a mão esquerda ou entregar objectos com a mão esquerda. Em actos mais formais entrega-se com a mão direita, colocando a esquerda a meio do braço direito, numa espécie de manguito, mas com o braço direito devidamente esticado. Este é um gesto de elevada educação.

Nas repartições públicas, o facto de entregar papéis com a mão esquerda é meio caminho andado para se encalhar o processo por algum tempo, mas imbuído num silêncio que nada nos revela sobre a inocente falta de respeito.

Perguntando a dezenas de Moçambicanos, o mais curioso é revelado, pois o desconhecimento é total: sabem do facto, respeitam-no, educam os seus filhos dessa forma, mas não sabem o porquê. Assim, há uma disciplina implícita, sem que o motivo esteja claro, que se for quebrada leva-nos para terrenos da má educação.

Posso apenas suspeitar que a origem deste fenómeno se pode encontrar na influência árabe e indiana que Moçambique tem. Nessas culturas a mão esquerda é de facto relegada para funções menores, não podendo sequer ser usada para comer ou cumprimentar alguém.

Talvez se trate de tradições que passam nos hábitos rotineiros, mas cujo conteúdo se perdeu no caminho…

Da mesma maneira que não encontro explicação lógica para “as senhoras primeiro”, como mandam as boas maneiras (inventadas por quem?). Pode ser visto como cavalheirismo, mas o cavalheirismo às vezes é parente do machismo e o machismo é um erro básico do comportamento humano. 

29 de dezembro de 2019

Bomba de água

O problema inicial é simples: a distribuição de água em Maputo não tem pressão para chegar ao 1º andar dum prédio. Acrescido a isto, o abastecimento não se faz durante 24 horas do dia, mas apenas nalgumas horas, que variam consoante as zonas da cidade.

Como se supera o desafio de tomar banho no 3º andar? Graças a este objecto: a bomba de água.


Uma maquineta cujo nível de prioridade é elevadíssimo, podendo facilmente disputar lugares do pódio com o fogão ou máquina de lavar roupa. Não chega a desenvolver emoções amor/ódio, por se tratar duma relação Homem/máquina, mas é certamente um mal necessário.

As bombas, conjugadas com depósitos de água e respectivas boias, formam um engenhoso circuito que garante o abastecimento de água às casas durante 24 horas. Depósitos em baixo e em cima do prédio, bombas que empurram, bombas que puxam, bombas que dão pressão e a água não para de aparecer nas torneiras da casa. Isto é em si um luxo magnifico de saborear.


As bombas são barulhentas e vibram, se forem instaladas junto à estrutura do prédio. O seu funcionamento por vezes faz lembrar um suave berbequim de barulho metálico, outras vezes faz lembrar uma picareta prestes a entrar-nos em casa. Tudo depende da sua instalação…



Até aqui, tudo mais ou menos bem: a rede abastece água umas horas durante a noite, os tanques acumulam água até ao próximo abastecimento e as bombas colocam o precioso líquido nas nossas torneiras.

Mas como a criatividade humana não tem limites, muitos são os esquemas de desviar água depois dos contadores (dos outros, naturalmente). Vi a aplicação da famosa “puxada” no circuito de água, que normalmente se associa aos fios eléctricos.


Numa das casas em que vivemos aqui em Maputo, o inquilino que lá vivia antes alertou-nos para o custo excessivo de água daquela casa. Estranhando a situação, fiz uma vistoria completa ao circuito da água. Não demorou até descobrir a engenharia do desvio de água, sorrateiramente instalada nos depósitos do telhado do prédio. Havia duas puxadas furadas nos tanques que desviavam a água de forma descarada. Assim, uma bomba de água (e o respectivo contador) alimentavam 3 tanques (3 casas) em vez de 1.

Naturalmente a bomba queimou por excesso de esforço!


No que diz respeito às avarias, entra-se numa série com um número ilimitado de temporadas. Seja a boia que não dá sinal à bomba, seja a bomba de baixo que não puxa, seja a bomba de cima que não empurra, seja a água da rede que naquela noite não veio, seja a bomba que ganha ar e encrava, seja a electricidade que falta e a bomba pára…muitos são os motivos para que esta engenhoca possa falhar.

Não sei se já experienciei todo o tipo de avarias, mas já fiquei várias vezes sem água.

No fim das contas há uma relação de dependência com estas infernais e barulhentas bombas, uma relação de aceitação com os enormes tanques e uma relação de ralação com possíveis esquemas de roubo de água. 


Mesmo agora que vos escrevo, ouço a bomba a trabalhar e sinto o vibrar dela nas paredes. Gostaria de a ter mais silenciosa ou, idealmente, não a ter. Mas se as bombas não fizessem barulho, e os tanques não dessem trabalho, estaríamos a carregar baldes à hora de abastecimento da rede e isso seria definitivamente mais aborrecido.

Vive-se com mais um electrodoméstico bastante útil, é o que é…