4 de janeiro de 2021
WebTertúlia
12 de dezembro de 2020
Almoço real
*acontecimentos
pré-pandemia
No final da missão de
trabalho avisam-nos que fomos convidados para um almoço tardio com a Rainha.
“Com a Rainha?”, admiro-me eu, “Como se almoça com uma Rainha? Não tenho roupa
apropriada…”.
Estávamos no mato, no coração
da Zambézia, onde se sente que a vegetação renova o ar, o calor vem do chão e
com qualquer chuva as plantas parecem saltar, tal é a velocidade com que
crescem.
Dirigimo-nos aos
aposentos da Rainha. Estava ansioso para a conhecer, pois não é
todos os dias que se vê uma Rainha ao vivo.
Vemos na mesa alguns dos
produtos locais, numa espécie de oferenda aos visitantes. E nós, que trazíamos?
Mostram-nos igualmente a apanha desse dia: folhas e flores de quiabo. Os meus olhos brilham, pensando que vou experimentar tal iguaria, mas logo anulam o meu entusiasmo dizendo que se trata do jantar da Rainha. “Demora a preparar”, informam-me…
A nossa mesa é
delicadamente preparada, com uma toalha que parecia esperar por visitantes para
sair da prateleira. O “palácio” da Rainha tem uma palhota muito acolhedora, com
um telhado de colmo que nos resguarda do implacável sol. É servido xima, caril
de frango e malagueta fresca ainda agarrada aos ramos colhidos, para consumir
em função do gosto por piri-piri.
Talheres de prata? Não
há…uf…tinha dúvidas se saberia usar talheres requintados e guardanapos
bordados. Descartadas as mordomias, come-se com a mão direita, fazendo uma
bolinha de xima, que depois se mergulha no molho. Absolutamente delicioso.
No final da refeição, a
sobremesa. Cana-de-açúcar e a primeira produção de aguardente de cana-de-açúcar
do ano: a primeirinha! Vem
disfarçada numa garrafa de cerveja, sem rótulo, omitindo qualquer ingrediente
extra e sem necessidade de anunciar o grau de álcool. Tem que se ir mastigando
a aguardente e percebendo o nível de álcool com base na conversa que vai tendo
com o corpo.
A primeirinha é servida pela própria Rainha, a líder da comunidade
local, cuja realeza se evidencia na sua generosidade. Com um sorriso enorme agradece
a iniciativa de cadastro de terras que estamos a fazer na sua aldeia,
conhecendo e valorizando a importância do trabalho.
Bebo alguns copos. É
doce, leve e perfumada. O meu corpo conversou bem com a primeirinha. No regresso ao alojamento sinto uma enorme sonolência,
uma rendição do corpo à sabedoria da primeirinha.
Fundo-me com a cama às 17h30 e só acordo 12 horas depois…reconstruído…
24 de setembro de 2020
Cuidado com os macacos
Num desses muitos
paraísos que Moçambique nos oferece, passeava com o Leo rodeado de vegetação.
Um cenário destes pode oferecer variada fauna e podemos ficar maravilhados com
os gala-gala ou os pássaros ou as baleias à vista, etc…
Neste sítio havia um tipo
de fauna mais atrevido, os macacos. Era óbvio que tinham alcançado um nível de
confiança que os deixava aproximar dos humanos. Provavelmente por erro humano,
pois algumas pessoas acham giro darem comida aos macacos e eles habituam-se.
Estes aproximavam-se da mesa do pequeno-almoço com intenção séria de, a
qualquer distração nossa, roubarem uma fruta ou pão ou o que conseguissem.
Alertei então a pequenada:
“cuidado com os macacos”! O “cuidado com…”, é uma expressão que os pais têm sempre
preparada e que costumam usar de forma abusiva. Mas o “cuidado com os macacos”
fez-me parar e desatar a rir.
Eu, nascido e criado em
Lisboa, só via macacos no jardim zoológico de Sete Rios, por trás das grades. A
única actividade que via deles era quando comiam de forma mecânica os amendoins
que lhes dávamos. Sem ser no ZOO, só me lembro de os ver na TV!
Aqui em Moçambique, o Leo
desatou a chorar quando pretendia dar um passeio sozinho agarrado às suas
bolachas e teve que voltar para trás por perceber a cobiça de um dos macacos pelas
bolachas. Lavado em lágrimas disse: “papá…macaco quer bolacha Leo”. Como pai
reconfortei-o, mas confesso que divertido pela situação peculiar.
Ensinei-o então a afastar
os macacos. Sem atirar nada nem tentar bater, expliquei que podíamos dar uns
berros, bater as palmas ou qualquer outra solução que recorresse ao barulho.
Normalmente isso seria suficiente.
E foi.
Passado um bocado o Leo
agarrou um pau que batia vigorosamente no chão e mantinha a macacada a um
perímetro de segurança. Resultado: criança feliz, pai descansado e cada macaco
no seu galho.
11 de setembro de 2020
Baleias à vista
É sabido que nalguns
meses do ano as baleias visitam a costa de Moçambique. Nalguns locais a
probabilidade de as ver aumenta devido ao ecossistema e ao reduzido tráfego marítimo.
Se damos por nós num
desses locais, nessa altura do ano, nasce uma esperança de ver qualquer coisa.
Qualquer sinal de que as baleias estão no mar já valeria a pena a missão.
Mas quando vi, mesmo ao
longe, a primeira espuma, invadiu-me uma excitação infantil.
Depois vi uma parte do
corpo, que à distância pode ser qualquer coisa, mas bolas…é baleia!!
O espectáculo vai-se
desenrolando ao próprio ritmo das baleias na natureza, lento. E eis que vejo o
dorso de duas baleias a nadar a par, não muito longe da rebentação das ondas!
Achei que tinha atingido o auge deste safari à distância.
Na esperança de ver
mais dorsos e espumas, sentei-me em local próprio, munido de uma lente
objectiva que me permitisse registar o que se passa lá longe no mar.
E aí sim, o espectáculo
começa e as baleias vão bailando à nossa frente, a tirarem partido da sua
liberdade e do ambiente que ainda lhes permite voltar todos os anos, cumprindo
um maravilhoso ciclo da natureza.
O auge, esse sim, foi atingido,
quando a Bia quis fazer um desenho sobre o que mais gostou nesse dia…



