21 de março de 2013

Não há paraísos


Tenho vindo a colocar aqui textos e fotos de Pemba e arredores que às vezes suscitam comentários cheios de inveja (da boa) da vossa parte. Praia, mar, mato, vida ao ar livre...tudo fatores que contribuem para uma qualidade de vida que eu considero muito boa. Tudo fatores que podem caracterizar o paraíso mas, como é sabido, não há paraísos! Não o digo em tom de queixume, mas como a mais básica das evidências, em qualquer parte do mundo.

E para vos mostrar a outra parte de Pemba, hoje vamos às compras. Há duas particularidades de Pemba que fazem das compras uma missão: diferentes locais de compra e preços! Em primeiro lugar não existe um local único onde se possa comprar tudo, ou quase tudo que se pretende. Todo o comércio se baseia em pequenas lojas, cada uma com a sua gama de produtos. Isso obriga a um exercício engraçado de, depois de fazer a lista do que queremos comprar, termos que desenhar um mapa dos locais por onde passar (geralmente nunca inferior a 4).



A província de Cabo Delgado é muito produtiva em termos de florestas e turismo, mas parece ter um défice de produção agrícola. A maior parte das coisas vem de fora, transportadas por estrada e preços refletem isso. Sentei-me aqui ao computador a comparar preços locais com os do Continente. Além duma comparação de preços temos que introduzir o factor “custo de vida” que à partida é mais baixa aqui do que em Portugal. Mas Moçambique anda com preços loucos, ao nível ou mais altos do que na Europa!



O que é um português sem tomate? Poderá ser um francês sem queijo? Um asiático sem arroz? Aqui temos sim, mas a que preço! Tomate vendido ao sol, que muitas vezes tem que ser meticulosamente escolhido para não chegar a casa com surpresas. Preço: MZ 100 mt/kg (2,5 €). Em Portugal fica pelos 1,3 €/Kg.

  
Um produto que eu adoro e que aqui, em jeito de brincadeira, chamo de gourmet, são as cenouras! Já tentei várias vezes lançar sementes na nossa machamba, mas o melhor que obtive foi uma rama ridícula que rapidamente murchou. A cenoura aqui está a 150mt/Kg (3,75€) e em Portugal cobram apenas 1,29 €/Kg.



Ainda hoje permanece o mistério porque é que o talho local (sim, só existe um lugar inteiramente dedicado à venda de carne) só vende carne congelada! Não há carne fresca na cidade, seja nesse talho, seja noutras lojas que, entre outras coisas, também vendem carne. Para ter carne fresca temos que comprar o animal vivo e esfolá-lo! Também é válido...e muito saboroso! Preço médio de 400mt/Kg (10€). Em Portugal 8€/Kg.


Moçambique tem várias marcas de cerveja e, à parte do gosto pessoal de cada um, posso dizer que são de qualidade. Umas mais saborosas que outras mas, verdade seja dita, não há falta! É daquelas coisas...um país pode ter dificuldades de educação, saúde, desenvolvimento, mas não é país se não produzir cerveja! Neste capítulo a diferença não é tão grande, mas existe. Enquanto em Portugal a “bjeca” está a 0,95€, aqui a cerveja está a 50 mt (1,25€).



O vinho é algo que nos primeiros tempos me recusava a comprar! Se em Portugal compra-se um vinho razoável por 4€, aqui temos que desembolsar 280mt (7€) pelo mais básico dos vinhos que, com transporte e mudança de temperaturas pode-se revelar vinagre na sua abertura! Não, não estou só a falar de vinhos portugueses, pois há vinhos sul-africanos de grande qualidade, mas nenhum deles dispensa a viagem.


Outro dia na rotina de compras, passei pelos locais habituais à procura de ovos. Primeiro lugar não tinha. Segundo lugar não tinha. No terceiro lugar também não tinha e resolvi desabafar com o comerciante:
    - Mas o que se passa com os ovos? Não encontro em lado nenhum...
    - E escusa de procurar mais, senhor, não há ovos na cidade.
    - Como não há ovos na cidade?? – em situação normal não me passaria pela cabeça 
      que um alimento básico como ovo acabasse em toda a cidade (e capital provincial)! 
    - Camião dos ovos só chega amanhã. Está a vir do Malawi.

Fiquei a olhar para ele, tentando não mostrar o meu espanto, e a fervilhar de pensamentos: mas os ovos que vêm para Pemba têm que vir do Malawi?? E pelos vistos só há um canal de  abastecimento, pois chegámos ao ponto de não ter ovos em toda a cidade! As galinhas de Cabo Delgado ou as galinhas das províncias vizinhas não põem ovos? Há greve de galinhas ou não há-de ser possível ?

Com toda esta condicionante, a dúzia de ovos chega-nos a 84mt (2,1€), equivalente a Portugal...



17 de fevereiro de 2013

Magia Artesanal

Queria porque queria ter uma recordação da madeira e dos artesãos locais. Cabo Delgado tem artesãos de mão cheia. A grande maioria de origem maconde, trabalham a madeira com artes mágicas.

Contactei vários artesãos e falei com uns quantos. Numa espécie de entrevista, com a madeira em bruto ao centro, analisava conversa, ideias, atitude, sinceridade nos olhos e claro, orçamento!

A decisão pendeu para o mestre Paulo. Não o mais barato mas aquele a quem os olhos brilharam ao ver a madeira e o nosso desenho, dando o mote para o que queríamos. O mestre Paulo diz que não tem estudos...que não conseguiu ir à escola. Mas eu acho que ele tem algo tão ou mais valioso: a arte de trabalhar madeira!!



Carregar um tronco maciço de pau-preto implicou 3 homens e até uma abertura improvisada da vedação para encurtar caminho.



Um leigo que olhe para um tronco em bruto não vê nada. Eu não vejo. Só vejo madeira e muitas rachas. Mas o mestre Paulo, neste momento, estou certo, já tirava medidas e borbulhava de ideias!




Várias ferramentas e todo o tipo de cosmética para trabalhar a madeira. O nível de toque vai desde o machado, espátula, várias lixas até, por fim, o pano que faz a limpeza final.











A primeira figura do homem...





...e a mulher, deitada, em estado bruto (à direita na imagem).



Uma coleção de antes, durante e depois...

 



 



E o resultado final: FANTÁSTICO!!


27 de janeiro de 2013

Postais de África do Sul


Os postais começam na cidade de Cape Town, pois Joanesburgo fez jus ao seu nome e, de puxão, levaram a câmara com as fotos até ao momento! Sem back up feito...ficam guardadas na memória!

Para trás ficou uma alucinante viagem de autocarro Moçambique abaixo e uma maravilhosa semana na praia do Tofo dedicada ao mergulho...


A assinatura da cidade de Cape Town: table mountain e uma zona portuária lindíssima. Cheia de turistas nesta altura, mas nem com isso perde a beleza!



A nossa primeira sede era de beber civilização...


...comer deliciosos nacos de carne...(coitados de nós só temos peixe fresco, camarão, polvo, lulas...)



...aproveitar concertos e fins de tarde culturais...


...fazer algumas compras e ir ao cinema! É assim, são os problemas de quem vive o ano todo na praia! Não há paraísos...



O teleférico para a montanha é assustador para quem, como eu, sofre de vertigens! À chegada ao cume, numa trajectória quase vertical, parece que vamos esbarrar contra as rochas, tal é a proximidade destas...


A vista de 360º compensa! Aqui temos Cape Town aos pés....


Long Street...uma forte opção para a noite!


Cape Town está num canto, é certo, mas a sua localização é das melhores que já vi! Mar, floresta e montanha...tudo perto...tudo bonito! Aqui um passeio nos jardins botânicos no último dia do ano...


...com picnic às costas!


Se o conceito de picnic fosse profissional, os sul africanos estavam com enorme vantagem! É que não brincam...trazem tudo naquelas cestas que se desdobram várias vezes, guardam recantos e transformam-se em mesas! Famílias, casais de vários tipos, grupo de amigos, tudo instalado para ouvir a música. À partida estranhei tudo estar sentado, mas em breve isso iria resolver-se!




O cenário estava montado!


Primeira banda (desconhecida para nós) e que bela surpresa: Hot Water!


 ....e zzzááássss....tudo de pé a mexer!


Segunda banda com o mestre Hugh Masekela e um leque de músicos para lá de bons! O cota tem 74 anos e uma pedalada invejável... 


 Passeio a Cape Point...


...com focas...


...pinguins...


...sinais portugueses! Chamem-me patriota, nostálgico ou saudosista...o que quiserem, mas foi com enorme orgulho que cheguei ao cabo da boa esperança e vi marcas dos portugueses que por ali passaram e em tanto contribuíram para que o cabo ficasse escrito na história!


A minutos da surpresa que a Yumi nem sonhava...


O pedido de casamento no cabo da boa esperança! Ela disse que sim...ao fim de uns minutos em que não sei se estava com asma ou se se tinha engasgado com algo!! 


 Um local histórico e mítico que agora faz parte das nossas vidas!


E claro...uma fotografia com o Adamastor...olhem para ele ali do lado direito da foto! Ainda em grande forma...


A última parte das férias foram então dedicados à natureza, começando com o que de melhor ela pode dar...vinho!


Costumo dizer que ainda bem que África do Sul está longe de Portugal. Porque eles têm uma variedade enorme de bons vinhos e a concorrência poderia ser feroz! Assim, a uns milhares de quilómetros de distância, a coisa vai-se aguentando!


Esta nossa amiga é mesmo fotogénica, não é?



E que tal andar a cavalo numa avestruz? Muito confortável, depois de ultrapassado o receio de ela só ter duas patas e termos que agarrar (com força) nas asas dela...




Yoga itinerante...



Cango Caves: uma das mais bonitas grutas que já vi...


Estrada de montanha em pleno parque Swartberg, património mundial! Mais uma obra de arte da engenharia!




Tentamos aprender com os sul africanos e arriscamos algumas refeições integralmente feitas ao lume! Não passámos fome...


 hhhmmmmm...



Mais história e mais marcas portuguesas! Desta vez uma visita à réplica do barco de Bartolomeu Dias que dobrou o cabo das tormentas pela primeira vez. Esta réplica, à semelhança do original  também navegou de Portugal a Mosel Bay na comemoração dos 500 anos dos descobrimentos.


O farol mais a sul de África!


O ponto mais a sul de África, o cabo das Agulhas, onde oficialmente se encontram dois oceanos...um de águas quentes outro de águas frias...


Mantas quase domesticadas...


...a serem alimentadas à mão!

 

...e que belas caminhadas!