24 de janeiro de 2015

Refeições volantes

Sempre admirei capacidade de fazer negócio dos Africanos. Onde menos se espera há sempre o produto que precisamos à venda. Se chove, por exemplo, aparecem tantos guardas chuvas que nos faz pensar onde estiveram tanto tempo escondidos. A cultura da venda ambulante é uma cartada de marketing que tem vitória certa. Ao deambularmos pela cidade vamos encontrando sempre produtos que precisamos mas que, no momento, não estávamos a pensar neles. Óptimas oportunidades para comprar coisas nos semáforos, ou enquanto bebemos uma cerveja numa esplanada.

Maior parte das vendas é de coisas materiais, embora também haja muita fruta boa. A questão por resolver era o almoço, que só de fruta o Homem não se aguenta. A realidade à hora de almoço era:

       1.       Poucas opções de refeições razoáveis a bom preço;
       2.       Demora no serviço;
       3.       Trânsito da cidade que não deixa ir a casa comer.

Eis que têm vindo a surgir as refeições volantes. Panelas e pratos de plástico na bagageira dum carro nalgum ponto da cidade. Estão espalhados um pouco por todo o lado, garantindo que todos fazem negócio. Geralmente há opções de escolha, entre carne e peixe ou arroz e xima. Até saladas se encontra. É uma refeição digníssima por ~2,5 euros que conforta a meio do dia.

No sudeste asiático é tradição. A comida espreita a cada esquina e não se espera mais do que 15 minutos por uma refeição. Maputo parece seguir as pegadas, tendo agora sérias alternativas às bolachas, badjias ou amendoins, usados para enganar a fome...

A higiene poderá ser o ponto fraco, mas o esquema costuma ser de tentativa e erro, provando e ficando atento a mais diarreia, menos diarreia. Sem diarreia sabemos que é a escolha certa e passa a ser o nosso restaurante ambulante de preferência.

12 de janeiro de 2015

Yoga em Maputo

RECOMEÇA HOJE A YOGA DA YUMI...


Informações em: 
yumshantiyoga@gmail.com
facebook.com/ShantiYogaMassage

27 de novembro de 2014

Vais apanhar porrada...


A reunião é interrompida por alguém que anuncia que o meu carro foi arrombado. “O meu?”, digo com o espanto dos que acreditam que isso só acontece aos outros. “Sim”, responde ele, com um sim tímido, mas não por ser duvidoso. Por ser cordial, mas de quem tem a certeza!

Desço e espero o pior: vidros partidos, portas forçadas, estofos rasgados, etc... Mas não. Carro praticamente como o deixei, faltando apenas algumas coisas no interior. “Como é que entraram?”, perguntava eu e as 3 pessoas que estavam comigo. Quando entro no carro vejo tudo o que levaram. Foram rápidos e cirúrgicos, como mecanizados na arte! Vejo que todos os pontos-chave no carro foram mexidos. Levaram o que quiseram...

Ainda a fazer um levantamento dos estragos e alguém me diz: “chefe, apanharam um...”. Vou vê-lo e está fechado à chave numa arrecadação: “faça dele o que quiser”, diz-me o captor. “Faço dele o que quiser? Como assim? Isto não tem que ter policia?”. E onde anda a polícia? Logo começam histórias dos observadores, que relatam capturas do passado. E como se arranjaram com as próprias mãos, para castigar o bandido. Sem envolvimento da polícia. Uma descrição demasiado pormenorizada das acções. Naquele caso o observador avisou logo o ladrão: “tu vais apanhar porrada...”

O ladrão diz: “sou doente, tenho tuberculose!”, e logo tira da carteira um cartão meio rasgado, que procura testemunhar o seu estado de saúde. Ninguém acredita no documento e o mesmo observador coloca a mão no ombro do ladrão, num gesto que à partida parecia misericordioso, mas que serviu para insistir: “com tuberculose também podes apanhar porrada!!”, ao que o ladrão acena humildemente que sim, preparado para o pior! Enquanto as ameaças não se materializavam, alguém lançou a ideia de que se teria que chamar a polícia. Concordei, e pus-me a andar na rua.

Encontramos o primeiro polícia, mas disse que estava no seu perímetro e dele não podia sair. Não encontramos mais... Pego em mim e vou à esquadra. Reporto o caso e metem-se 3 agentes armados no carro. Quando eles veem o ladrão não parecem surpresos, aquele deve ser um habitant da zona. Levamos o ladrão para a esquadra e a polícia pergunta-me com delicadeza: “quer que vá sentado no carro, ou pode ir no porta bagagens?”. Sentado atrás repetiu a história da tuberculose, mas o polícia conhecedor, logo encontrou papel de prata na carteira: “com tuberculose não se fuma crack”. Ladrão calou.


Fui embora, duvidando que haverá de facto alguma acção para o bandido, mas fui com a satisfação de dever feito. Ao que soube, na esquadra, o procedimento é standard: dão-lhe porrada (o observador tinha razão, não se vai safar mesmo), lava a casa de banho ou cozinha, dorme com os ratos e de manhã está livre de novo. Para a próxima talvez  leves uma sova e deixo-te ir...

16 de novembro de 2014

Fim de semana dos bons...

Aniversário da Yumi.

Despedida da avó Coreana, que esteve cá 2 meses, e deu uma ajuda preciosa.

50 dias da Bia.

...e um fim de semana longo para comemorar isto tudo...

O destino foi a praia de Chizavane...

 
O copito da Yumi, entre refeições da Bia

A moçambicana Bia africanizada

Passeios com nadadora Melaka

Petiscos à varanda

Do mar, a olhar para o mar. Doses ilimitadas de ostras...

Mais ostras e mexilhão apanhado nas rochas, para desenjoar

9 de outubro de 2014

Noites cinzentas

Lembram-se do meu passeio deDomingo há mais de 7 anos atrás? Pois me parece que a cooperação Angola-Moçambique neste capítulo está a dar força aos agentes do lado do Índico. Talvez porque as coisas más se aprendam mais depressa...


De farda cinzenta, andam pelas ruas à noite, em busca de subsídio salarial. Lanterna improvisada com o telemóvel, mandam parar indiscriminadamente. Se andassem à pesca seriam daqueles pescadores sem escrúpulos, que lançam dinamite nas águas, com certeza de que tudo será apanhado, sem distinção de espécies nem preservação do ambiente.

A apresentação é fraca e a mistura explosiva: muitas vezes cheiram a álcool ou já lutam com a língua, que teima em enrolar, para poder falar; arma a tiracolo e formação cívica baixa. Enquanto discutem connosco a arma vai dançando nos seus ombros, desviando a nossa atenção para o potencial perigo. As armas estão enferrujadas e não é preciso perceber muito de material bélico para perceber que são modelos antigos, mas apesar disso, não quero nem suspeitar nem ter provas de que a arma não funciona. A formação cívica, na maioria das vezes não nos deixa ter uma troca de argumentos capazes. As discussões tendem para a teimosia policial, pois se eles dizem algo, pouco nos resta para contra argumentar.


Mas nem tudo é mau, tenho que admitir. Têm capacidades teatrais fora de série. Combinando uns com os outros, vão elevando a seriedade do assunto, à medida que chamam o seu “superior”, que vem com ar sério, pouca vontade de ouvir, com a palavra “esquadra” debaixo da língua e às vezes de algemas já na mão.
Exploram também técnicas de intimidação, para ter uma base de estudo do condutor. Se este abanar ou ceder, vão por um caminho. Se não, jogam outras cartadas:

“a andar na rua tão tarde?”. Como ainda não há recolher obrigatório em Maputo, esta pergunta não tem razão de existir pois, que eu saiba, não há limite de hora para andar na rua

“porque é que é a sua esposa a guardar os seus documentos?”. Técnica básica para amedrontar.

“não saber também dá multa...”. O não cumprir dá de facto multa, independentemente de a pessoa ter conhecimento prévio da infracção ou não. Agora reparem, o simples facto de “não saber” também, dizem eles, dá multa. E não hesitam em evocar o artigo da lei e a quantia da multa, tentando dar credibilidade ao disparate!


Multas tudo bem, e eu próprio já tenho uma colecção delas (todas de excesso de velocidade). Mas com razão! Pois o ridículo chega quando concordamos em pagar a multa, seja porque de facto a polícia tem razão, ou porque desistimos de discutir. É que estes polícias de farda cinzenta não têm qualquer instrumento de autuação: nem livro de multas, nem balão de controlo de álcool. Ou seja, não nos podem multar, mas também não tiram os nossos documentos do bolso deles. Ali ficamos a olhar uns para os outros. Fica a estranha sensação de como é que a discussão se vai arrastando, recorrendo muitas vezes à ameaça, se no fim nem uma multa podem passar. Mas é surpreendente com esta estranheza se dissolve num sentimento banal.

Já há quem adopte várias estratégias para evitar este cinema ao ar livre nas noites das ruas de Maputo. Há quem só saia de táxi, mas até aí a polícia é assertiva, mandando parar o táxi e, sem sequer uma boa noite ao condutor, já nos está a pedir a documentação pessoal. Há quem planeie as rotas passando apenas pelas ruas principais, pois a probabilidade da polícia lá estar é menor, claro!
Eu sei que o salário dos polícias deve ser irrisório e que, aqueles agentes de segurança nacional, escondem uma vida social com grandes dificuldades, mas não me parece justo que o cidadão tenha que pagar por isso de forma tão directa!

A distorção provocada por estes episódios é tal que, aquando da minha última viagem à Etiópia, percebi como a polícia, no geral tem má conotação na minha cabeça. Estava dentro de um táxi e quando vi polícia mais à frente na estrada exclamei para o taxista “Bolas, policia, estamos lixados!”. O taxista olha para mim de soslaio, espantado com a minha frase e responde “lixados? Porquê? A policia anda nas ruas para controlar o trânsito.

Obrigado Sr. Taxista, por me lembrar da função base dos policias...quase me tinha esquecido!