5 de novembro de 2007

Desperdícios

Maior parte dos musseques em Angola têm escassas condições de habitabilidade! Não há água canalizada, nem devidos escoamentos sanitários. O lixo é deitado fora à vontade de cada um para onde apetece. A convivência com o lixo e esgotos tem um resultado obviamente negativo!

É uma convivência que coloca Angola no 2º lugar do ranking mundial de mortalidade infantil!! Com uma mortalidade de 250 crianças em 1000, na faixa etária até aos 5 anos, este é um índice crítico!!!

Não bastando os rios de esgotos para haver infiltração nas terras, fazem-se fossas sem condições nenhumas. Fossas que não são correctamente esvaziadas ou limpas, deixam infiltrar toda a porcaria pelas terras e as consequências mais visíveis são na agricultura e nos lençóis freáticos. Tudo contaminado! Uma das fontes da febre tifóide, doença que mata se não for bem tratada, é este “ciclo” imundo que contamina as culturas!


Os lençóis freáticos contaminados não permitem que se beba ou se lave os dentes com a água da torneira! Para cozinhar com esta água é necessária uma fervura de 15 a 20 minutos! O gasto de água mineral para as pequenas tarefas como lavar fruta, dentes, fazer gelo, etc…é um gesto que coloca atónito qualquer Europeu de bom senso!

Actualmente, apenas 20% da população Angolana tem acesso à electricidade!!! E lembrem-se…é um valor indicativo para quando há abastecimento! Com a frequência dos cortes de luz…este indicador começa a descer! Percentagem que faz disparar o negócio de geradores a gasóleo!
Engenhos tenebrosos que estão na origem de muitos acidentes domésticos, dos quais posso falar, infelizmente, como testemunha! Máquinas poluentes do ar e produtoras de ruído! Gastadores de gasóleo que circulam pelas ruas em bidões sem condições, que são guardados em locais duvidosos! Chamem-me naíf à vontade, onde se fala de crescimentos económicos de 35%ao ano, há falhas básicas como estas? As conquistas dos países mais desenvolvidos não deveriam servir como base para os que estão a evoluir?……ou haverá interesses nisto tudo?

31 de outubro de 2007

Depois do deserto

A mãe natureza é fantástica! Eu adoro a mãe natureza! Aqui em Angola só há duas estações do ano: o tempo seco e o tempo das chuvas. No primeiro é quando faz mais frio e não cai uma pinga de água do céu (3 a 4 meses)! No segundo, no resto dos meses, faz um calor abrasador e caem as tão famosas chuvas tropicais! A mudança, por estas bandas, sente-se quando começa a chover no Lubango! É quando o Namibe, junto ao mar, a mais de 200km do Lubango fica sem o “capacete” de nuvens do tempo seco e oferece um céu azul de praia por….mais de 8 meses!!!

Nós, por aqui, aguardámos o sinal de S. Pedro e, depois de algumas chuvadas, achámos que já íamos aproveitar uma praia!

Foi para lá que nos dirigimos no fim-de-semana passado! O caminho passa pela estrada da Leba, que eu já vos apresentei…e continua, mudando progressivamente de cenário!

A partir da floresta da serra de Leba, a vegetação vai escasseando e reduzindo a sua dimensão! O clima fica mais árido, mais desértico e os tons verdes dão lugar aos tons acastanhados….

O caminho é todo feito em estrada, boa estrada, estrada de alcatrão!

Assim, os 200km fazem-se mais ou menos em duas horas! Pelo caminho, além da paisagem, vão-se vendo vários mukubais, nome das tribos da zona. Pacíficos indígenas que, habituados à civilização, fumam Dunhill e pedem dinheiro pelas fotografias que tiramos!

A zona que rodeia o Namibe é desértica, muito árida e com alguns oásis, aqui e ali!

Dominam os tons castanhos e escasseia a vegetação. Deixamos a rede de telemóveis e os sinais de trânsito. Deixamos os restaurantes apinhados de gente e o trânsito da cidade. Deixamos a estrada alcatroada para um caminho de terra, de areia, de pedras…que nos fez atravessar o deserto em estilo rali! A “pista” de areia convida ao bailado das pick-ups…


Eis que depois de alguns quilómetros aparece uma placa a identificar os únicos dois caminhos, um para a direita, outro para a esquerda. Optamos pelo da direita…


O caminho começa então a complicar, exigindo, por vezes, o uso das 4 rodas motrizes! Uma ou outra descida têm mesmo que ser feita com mil cuidados…sob pena de…não a fazer!! Entramos num mini desfiladeiro com encostas de areia. Assim levamos as pick-ups a “bom porto”, carregadas de logística, como se vê na foto!

Esta é a logística, não mínima, mas a necessária para podermos habitar a praia com pequenos luxos! Colchões, água, carvão, comida, bebida, cadeiras, geladeiras, petiscos, utensílios de cozinha, alguidares, etc…

Para quem me conhece, escusado será dizer que não usei nenhum colchão!! Eu ainda acredito que a areia é o melhor colchão…

A chegada à praia é fantástica…depois do deserto, uma praia quase vazia e…num dos cantos, dois toldos e uma cozinha improvisada! Praia rodeada por falésias enormes de areia!

Um espaço para montar tendas de alta tecnologia, tendas de abertura fácil, mas de fecho um pouco mais complicado!

Um passeio pela praia desvenda-nos habitantes locais…pessoas que vivem ali mesmo, em construções na areia, rodeados de falésias, mar e céu!

Seria perfeito se as dificuldades não fossem tantas! Viver ali significa isolamento, significa estarem a uma hora de estrada e meia hora de mar da cidade do Namibe.

Vivem da pesca (à linha e de barco), da criação de cabras e pouco mais! Um bem raro é mesmo a água doce!!

A nossa actividade diária, e porque era fim-de-semana, baseou-se no relax! Petiscos, drinks, banhos, solzinho…e chega, senão tornar-se-ia num stress!!

À noite fomos testemunhas de um acontecimento esmagador!

Uma tempestade longínqua e um muro de nuvens escondiam a fonte duma claridade intensa que já iluminava o céu. Passado uns minutos, aparece num céu limpo, uma lua alaranjada, enorme! Por estarmos num local com pouca luz eléctrica a luminosidade lunar foi algo de espectacular! Acontecimento que a limitação tecnológica e do fotógrafo não conseguem reproduzir fielmente na foto, mas….foi o melhor que se conseguiu.

A dormida foi, literalmente, com “room with a view”!

À beira mar plantado, ao som das ondas…um sono tranquilo e retemperador do stress do dia anterior, para mais um dia de canseira….

25 de outubro de 2007

Vistas do Lubango

O Lubango é a 2ª ou 3ª cidade com maior importância em Angola. Talvez disputando o ranking com Benguela/Lobito. Cidade bem mais calma que Luanda. Cidade onde um ajuntamento de 6 carros é um engarrafamento. Cidade onde se pode passear à vontade na rua…um à vontade com consciência, bem entendido! Cidade onde as caras desconhecidas vão ficando conhecidas de dia para dia. Cidade onde o sentido de orientação fica esclarecido ao fim de uma ou duas semanas.
Cidade pacata com uma grande percentagem de portugueses do tempo pré-colonial, que se sentiram bem para ficar…ou regressar logo após períodos conturbados! É uma espécie museu com testemunhos dum passado áureo, de períodos violentos, de ousadia na arquitectura ou de um mau gosto apressado!
Aqui vos deixo algumas imagens desta cidade que me recebeu, há umas semanas, violentamente com uma doença, mas que agora abranda a sua rispidez…mostrando-me um horizonte mais sorridente!

Cine-Teatro "Arco-Iris"


Sede do partido no poder, o MPLA

Locais de interesse nas redondezas do Lubango. Um bom apontamento turístico.

Algumas industrias, do tempo colonial, recuperadas.

A Sé.

Em qualquer terra que se preze...há uma Pensão Central!


Paisagem alpina, com alguns edifícios horríveis a figurarem na paisagem.

O contraste!!!

Antigo cinema. Hoje em dia ocupado por sem-abrigo.



A praça central. Foto tirada em modo "discreto"

A Rádio Nacional de Angola

22 de outubro de 2007

Medicamentos

Os médicos aqui em Angola receitam os medicamentos, ou a sua substância activa, consoante as queixas e sintomas do paciente, de uma forma peculiar! Quando alguém “está incomodado” (termo que aqui se usa para alguém que está doente) geralmente receitam sempre uma lista grande de medicamentos…estando as vitaminas no número um das terapêuticas aconselhadas! “Mal não faz”, dirão os médicos…e é verdade… Há quem diga que, quando o diagnósticos é fraco, o melhor é receitar muita coisa…alguma há-de curar!! Se não, há sempre chás milagrosos, mézinhas, rezas, etc…ao gosto de cada um! No meu caso, por exemplo, usei um “filtro de consciência”…o médico receitou-me 4 medicamentos e eu apenas comprei 2. Um deles era para as diarreias…que eu nem sequer tinha!!, o outro era substituível por Ben-u-ron!

Mas o elogio deste post vai para o “aviamento controlado” dos medicamentos. Se o médico receitar xelotafinogetalinoraxinamol (por exemplo) durante 3 dias, de 8 em 8 horas, perfaz-se a quantia de 3 x 3 = 9 comprimidos curativos. Chegamos à farmácia e a maior parte dos comprimidos encontra-se em boiões de plástico. Ele tira o número de comprimidos que necessitamos e faz-nos a conta: 9 comprimidos, a 100Kzs cada um, dará 900 kwanzas! Coloca os comprimidos em saquinhos de plástico com o respectivo nome. Pagamos o que vamos consumir…nada mais…e consumimos apenas o que foi receitado…nada mais! Para as tabletes de comprimidos, que contenham um número superior ao necessário, é fácil, recorta-se o excesso! As sobras hão-de, mais cedo ou mais tarde, satisfazer o “incómodo” de outro alguém!


Ora aí está uma bela solução!

Resolvem-se os seguintes problemas:
- Desperdício (aliviando um abastecimento, sempre difícil, de medicamentos)
- Armazenamento dos medicamentos que sobram, em local fresco e seco! Coisa que é difícil de ter aqui…
- Deitar fora os comprimidos fora de prazo em locais indevidos e evitar desvios

18 de outubro de 2007

Fronteira

A cidade do Lubango encontra-se no extremo oeste da província da Huíla, sobre um planalto, a mais de 1700 metros de altitude. As províncias aqui estão para Angola como as regiões estão para Portugal. A província mais próxima do Lubango é o Namibe, que proporciona belos passeios. A fronteira entre a Huíla e o Namibe tem que se lhe diga!

Primeiro, na estrada, encontra-se uma portagem!! Dia e noite…com contentores de apoio…ali está um posto fronteiriço…entre províncias do mesmo país! (imaginem uma portagem para passar do Alentejo para o Ribatejo!). Paga-se a módica quantia de 150 Kwanzas (1,5 euros) …esta é a fronteira burocrática.

Depois há a fronteira física! Deixa-se o planalto e a altitude começa a descer vertiginosamente para um outro cenário, mil metros mais abaixo! É uma abrupta mudança que a mãe natureza nos oferece com um imponente espectáculo de escarpas e sensações vertiginosas!

Perante este cenário, a força humana, humildemente térrea, dispôs-se a tentar contornar a majestosa descida. E verdade seja dita…inaugurada em 1972, vê-se, ainda hoje, uma obra de se lhe tirar o chapéu: a estrada da Leba! Imagino as complicações, as dificuldades, os contratempos na construção desta estrada…no local que é, com os meios que havia, na época que foi! Acho que é nestas situações que a engenharia anda lado a lado com a arte…


Em termos de condução é simples…concentração máxima, mudança em 2ª, velocidade reduzida e…se ajudar, uma boa música no rádio! Camiões carregados de pedras, areias, materiais percorrem também esta estrada, a passo de caracol, a 5Km/h!


A ferocidade do percurso é tanta que alguns motores são vencidos pelo declive…pelo prolongado declive! Depois deste percurso, somos levados, por caminhos bem mais calmos, para a província do Namibe, onde o cenário vai mudando…até chegarmos ao mar, onde o sol se põe!