sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Terra à (Boa) Vista

Primeiro embate é isto mesmo, é a primeira impressão, superficial, de quem acaba de chegar. Por vezes é consistente com a opinião uns tempos depois. Por vezes não. Vale pelo momento…


 Mudámo-nos para uma ilha com 15 mil habitantes. São precisas mais de 3 ilhas destas para encher o estádio de Alvalade e uma enorme logística para deslocar tanta gente! A capital da ilha é a vila de Sal Rei, com cerca de 10.000 habitantes, menos que o bairro de Alcântara em Lisboa. Este é de facto o primeiro desafio. Como se viverá numa ilha onde, ao fim de 2 semanas, já cumprimentamos várias pessoas por quem passamos na rua? Bem, viver-se-á com simpatia, está visto…



Vamos a números:

- A ilha tem ao todo 52 km de estrada e 55km de praia. Leram bem. A extensão de praia é maior que as vias de circulação. Parece-me uma proporção perfeita!;


- A ilha toda tem 620 km2, metade do tamanho de Londres, mas sem o respectivo trânsito. Pode-se ir a qualquer lado e voltar à capital num dia. Na verdade, numa manhã. O que acontece aqui é que a velocidade de deslocação deve ser forçosamente lenta, caso contrário tudo se faz em muito pouco tempo;

- Vivo a 200 metros da praia e a 300 metros do escritório. Vou tentar não ir trabalhar de chinelos;



- Diziam-me que não chove na ilha, que é um deserto sem vegetação! Mas há vários dias tenho uma inundação à frente de casa. Uma espécie de lago privado. E já estou a criar o meu jardim na varanda do 3º andar;


- 38% da ilha é de áreas protegidas, e quase um quarto da orla marítima é reserva de tartarugas. Espero que se mantenha;


- À noite é a paz, o silêncio. O que mais se ouve é o vento a entrar pela janela e os burros a relinchar (e os geradores em noites sem luz, mas estes não têm encanto nenhum…). O mar, por ser tão calmo, raramente se ouve;


- Estão registadas 37 praias na ilha. O plano da nossa estadia é de 14 meses, o que dá para conhecer cerca de duas praias e meia por mês. Temos que nos apressar…



É verdade, quase não mencionei, venho para trabalhar! Mas isso é assunto de outro post…

sábado, 27 de agosto de 2016

Até breve Moçambique



Queria fazer um texto à altura da ocasião: estou a sair de Moçambique, com mais de 6 anos de vivência na bagagem…

Mas que se pode escrever? Seleccionar um “best of” das dezenas de textos aqui publicados? Fazer uma colectânea de centenas de fotos? Encher um texto com clichés!? Prefiro listar factos:

- Percorri milhares de estradas e caminhos. Nem todos apareciam nos mapas…;

- País onde ensinei muitas matérias e aprendi muitas ciências;

- Conheci pessoas fantásticas e horizontes coloridos;

- Terra que me viu casar e me deu a minha primeira sorte (1ª filha);

- Agora vivo com o coração repartido e sinto-me bem com isso.


Não há textos mágicos para uma partida após 6 anos, ou 2, ou 10 ou 20 anos. Quando há coração envolvido há vida. E essa vai ficando na nossa história.


Descansem os (ainda) fãs da Tertúlia, pois o novo destino ainda está dentro do continente Africano, mantendo viva a dinâmica do blog (se o destino fosse fora de África talvez tivesse que mudar o título!). Novidades em breve…

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

20 anos



Reflecti muito antes da publicação deste post. Receei que resultasse num anúncio de venda dum carro, mas ele merece o texto! Em África a marca mais falada é a Toyota e quem por cá anda sabe porquê. Robustos e duradouros. O seu elevado número ajuda na manutenção dos activos, e assim se fazem maravilhas da mecânica. O mercado de 2ª, 3ª e subsequentes mãos domina o mercado automóvel. Autenticas lendas da engenharia. De consumos nem vale a pena falar…



Este nosso belo exemplar fez nas nossas mãos 20 anos de vida. Pega sempre à primeira e o som é sintoma da saúde que transpira. A sua perda de acessórios deve-se também ao voraz mercado de peças, que não olha a legalidades para atingir os seus fins! Nada que umas lâmpadas de frigorífico não resolvam…


Nunca nos deixou ficar mal (e não será depois desta homenagem que o fará!). Com 20 anos, mas com muitas modernidades! Espelhos retrovisores eléctricos, botões variados, AC e airbag SRS, a acompanhar o lançamento desta tecnologia nos idos anos 90. Só lamento porque depois de ua pesquisa, percebi que ainda não o posso considerar de antiguidade. Ainda lhe faltam anos. Mas como me recuso a chamar-lhe de carro velho, refiro-me a ele como relíquia…


O pormenor que me derrete é o espelho retrovisor traseiro. Quais camaras e ecrãs! Com um botãozinho, o espelho aumenta-nos a visibilidade e não nos deixa fazer asneira quando vamos em marcha atrás.


Este animal de palco responde bem tanto em estrada como fora dela. E como é confortável nos solavancos das picadas. Lavado pela manhã, deixa no chão a roupa empoeirada do fim-de-semana e fica pronto para as formalidades citadinas.



A sua robustez faz-me acreditar que as estradas onde vai encalhar ainda não foram inventadas…


terça-feira, 5 de julho de 2016

Xixi cócó

Parace que ainda cheira ao mesmo assunto.

Não é por contágio porque a Bia ainda não está na idade do “xixi/cócó”. Talvez seja a criança dentro de mim que esteja a passar por essa fase. Mas o adulto em mim chama-me à atenção para as mensagens. A linguagem directa e dissuasora da infração.

Na primeira a frase é muito clara. A dúvida fica na fiscalização. Será que volta e meia abrem a porta de repente e verificam o que estamos a fazer?


A segunda prima pela opção da multa. As multas costumam fazer-nos doer nos bolsos, mas esta não. Não toca nas nossas economias. Mas será que dói menos?


A última é a minha preferida. Além de dar opção, aliviando a carteira, incentiva à limpeza onde todos ficamos a ganhar. 


Prometo puxar o autoclismo a este assunto e trazer-vos outras coisas…

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Hora da decisão


Este post serve para reflectir sobre duas formas de fazer cocó. Esse gesto diário, incontornável e necessário a todos. Não pelo cocó em si, como imaginam, mas pela forma…

Apresento duas formas distintas de aliviar as nossas necessidades maiores.


O buraco da latrina. Ainda muito comum no Moçambique real, e em tantos outros locais do mundo. A latrina oferece nada mais que um caminho para um depósito de dejectos. Podem ter água ou serem secas, mas raramente são confortáveis. Resolve o que tem a resolver, mas deve muito à ergonomia e por vezes o incómodo de insectos é perturbador. A higiene é básica mas garantida.


Já outro exemplo é uma sanita com telecomando. Este tipo de sanita tem estado muito associado a países super desenvolvidos, tendo sido este exemplo fotografado na Coreia do Sul. Sanita cujas características abrangem também as funções de bidé. Com o telecomando controla-se todo o mecanismo: i) aquece o aro onde se senta; ii) aciona-se o autoclismo; iii) liga-se a água do bidé em esguicho; iv) activa-se a ventoinha para secar o rabiosque. O conforto é evidente. Já que estamos na onda da excentricidade, eu acho que falta um sistema de som e apoio para jornal/revista para entreter durante o momento. Talvez num próximo modelo…

Muito bem. Penso que os nossos olhos já escolheram. Agora vejamos na perspectiva de impacto ambiental e recurso a energia, assunto tão em voga e onde todos estamos envolvidos, para o bem e para o mal! Imaginam a quantidade de energia necessária para executar todas as funções da sanita do telecomando? Electricidade, muita água e…telecomando!

                                                  Daqui

A latrina é um buraco. Pode ser embelezado com cosmética mobiliária para dar a ilusão de que é uma sanita. E é! A energia necessária é quase nula. Algumas nem usam água e ter as estrelas como candeeiro é sempre uma boa experiência. Aquilo que chamamos de porcaria pode ser reaproveitado para a natureza.


É engraçado como aquilo que nos arregala ao olhos é o que mais brilha e nem sempre o mais adequado.

É engraçado como aquilo a que estamos habituados nem sempre contribui para a saúde do ambiente. Basta mudar alguns hábitos e multiplicado por milhões faríamos a diferença nessa tal sustentabilidade, que tanto se fala.