Fiz uma viagem “à Zé-Tó”. Mas primeiro vou explicar quem é, o que é e depois então, o que fiz.
Primeiro: Quem é o Zé-Tó?
O Zé Tó é um tipo que nasceu em Cativelos, na Beira Alta. Ainda menino e moço mudou-se para a capital, estudou matemática e, ao contrário do que se diz deste curso, teve muita saída profissional. Talvez porque fez pouca matemática e muitas outras tarefas: jornalista, escritor de programas, turismo e, claro, um exímio professor! Nos últimos anos tem sido um verdadeiro caixeiro-viajante, espalhando a palavra da estatística por essa Europa fora.
Nos tempos livres gosta de fazer quadros colando, com invejável paciência, papelinhos de diferentes cores e feitios. Gosta de jardinar e dormir sestas…de 10 minutos(!). Gosta de se deliciar com o neto, bastando, por vezes, apenas admirá-lo em silêncio.

Dá pela condição de meu pai há cerca de 29 anos e é um bom exemplo e referência para mim!
Segundo: O que é uma viagem à Zé-Tó?
O Zé Tó gosta, e muito, de viajar. Aliás, foi pela sua mão que conheci maior parte da Europa, quando eu ainda era pequeno. O meu pai a guiar, a minha irmã a ler o mapa e eu a fazer o catering da tripulação (sandes com uva era o fruto da minha imaginação juvenil). Assim percorremos milhares de quilómetros em diferentes paisagens e idiomas. O delírio do Zé Tó em viagem são as fronteiras, quando ainda as havia na Europa toda! Eu pequeno aos trambolhões no banco de trás e o meu pai dizia: “André, agora senta-te, é a fronteira!”. E eu, traquina, inventava um ar sério, olhos esbugalhados a ver os letreiros de despedida e boas vindas dos países… Era, para o meu pai, um acto solene. Outra língua, outra moeda, câmbio à pressa feito mentalmente, documentos e a feliz obtenção de um carimbo. Ficava até desiludido quando não lhe davam um carimbo no passaporte. Além do delírio com as fronteiras, há um especial fascínio por fronteiras complicadas!

Dificilmente esquecerei a visualização da fronteira da Republica Checa no ano de 1989. Uma ida à fronteira visual, não virtual mas sem a atravessar. Passo a explicar: em 1989, embora o regime comunista da Rússia estivesse a acabar, as suas fronteiras eram guardadas com armas e dentes. Não é por acaso que se chamava “cortina de ferro”! A transposição dessa cortina era deveras complicada, quando possível. MAS…o meu pai tinha a ambição de ir, ou de pelo menos ver a Republica Checa. Assim o fizemos. Passeávamos na Áustria e, através do mapa, o Zé Tó lá encontrou um local onde a estrada passava muito rente à fronteira. Para grande espanto meu, o meu pai estacionou, apontou o carro e acendeu os máximos. Eu, com os meus 9 anos, olhei pelo vidro: vi mato e arame farpado. O meu pai, em êxtase, dizia-nos: “isto é fantástico, meninos, ali é a Republica Checa!”. E fomos para casa. Hoje, com 29 anos, orgulho-me e agradeço por tal experiência. Embora não tenha dado valor na altura, não me fugiu da memória! Afinal estávamos a atravessar a temível cortina de ferro com os faróis e avistávamos a terra proibida…

Não tão difícil, mas deveras caricata foi a travessia de 2 fronteiras consecutivas, em 1994. Num passeio domingueiro, na altura em que vivia com o meu pai no Luxemburgo, perdemo-nos junto à fronteira. Resultado, antes que nos reorientássemos já tínhamos ido à Bélgica e a França em cerca de 20 minutos! Regalias duma Europa central de portas internas abertas.
Por fim conto-vos a que deu, a meu ver, mais luta, a ida ao Montenegro, em 1998. Passávamos férias em Dubrovnik, Croácia e oh tentação fronteiriça, ali tínhamos uma tão perto. Geograficamente perto, burocraticamente quase do outro lado do planeta. Autorizações, papéis do hotel, justificativo da polícia, ir à fronteira e voltar atrás porque faltava mais um papel. Mas nós batalhávamos, nós queríamos sentir a travessia para o remoto Montenegro, para grande espanto dos Croatas! “Que raio querem estes tristes ir fazer ao Montenegro”, deveriam pensar eles. E olhavam-nos como se olha a um sentenciado a caminho do isolamento no deserto. Conseguimos atravessar a fronteira no lusco-fusco e chegámos à primeira cidade de noite. Nada conhecíamos, nada parecia convidativo. Tirámos umas fotografias históricas ao pé dumas matrículas, e estava feita a recordação. Voltámos a passar a fronteira, sob olhar estupefacto dos polícias, mas felizes da vida. Atravessámos, estivemos do outro lado…é o que conta!
Enfim, temos um historial longo de transporte de fronteiras difíceis, seja a pé, de carro ou comboio!
Terceiro: Que viagem fiz eu

Tive que ir uns dias a Maputo para tratar de burocracias do passaporte. Aproveitei um fim-de-semana e fui com uns amigos ao extremo sul de Moçambique, a Ponta D’Ouro, destino de praia.

Ali tão perto duma fronteira, não resisti. Dei um passeio a pé pela praia em busca do local e OH, avistei a África do sul. Sem arames farpados, sem guardas sisudos, sem carimbos, mas que me conseguiu mexer nas recordações!

Ali a fronteira é meramente psicológica, dividindo uma única e longa praia. Todos podem ir tomar banho a África do Sul e estenderem-se ao sol em Moçambique. Nem se sabe bem onde fica, mas não deixa de ter aquela mística que me foi tão incutida pelo meu pai. Uma linha, um passo e um novo mundo…é o simbolismo de uma fronteira.

No regresso para Maputo, enganámo-nos no caminho. Ou melhor dizendo, apanhámos a picada errada. Porque o caminho é todo em terra batida, feito pela frequente passagem de carros. Não há placas, nem bombas de gasolina para nos informarmos! Fizemos um belo caminho ao longo duma vedação que, na altura, pensávamos tratar-se duma propriedade. A dada altura apercebemo-nos que estávamos no caminho errado. O sol, a orientação o feeling, indicavam-nos que não seria bem por ali. A vedação que nos acompanhava e que agora cortava a estrada também deu uma ajuda! Milagrosamente cruzámo-nos com uns polícias:
- Então, estão perdidos?
- Sim. – Objectivos…
- Sigam-nos que vos vamos ajudar a retomar o caminho.

E ajudaram, mas meteram-nos no caminho errado. Eles quiseram e forem prestáveis mas, afinal, nem perguntaram para onde queríamos ir. Demos por nós e estávamos…no posto fronteiriço com a África do Sul. Fez-se click! A tal vedação que nos cortou o caminho era, afinal, a linha de fronteira. Perdemo-nos com vista para a África do Sul…há coisa mais simbólica?
AAhhhhh…como adoro a mística das fronteiras!