O Carnaval celebrou-se na passada terça feira. Luanda, como um grande número de cidades mundiais, festejaram o Entrudo. Numa das rádios locais anunciavam: “Carnaval: a maior manifestação cultural do país!”, “Venha à marginal ver os festejos”.
Ora aí está um excelente passeio, pensei eu, uma experiência nova e um motivo de “reportagem tertuliana.” Deixa-me lá ir espreitar…
15h30 – Ora aqui estou eu. Nunca tinha vindo à marginal, em pleno dia, a pé. Que bela oportunidade para passear. Vou andando, pelo lado exterior, junto à água, até lá ao fundo a ver o que se vai passando. Uma cervejinha, uma foto, outra foto. Epa…isto está animado, grande pinta! Vou até ao local das bancadas para perceber o esquema.
Reparem bem neste artista. A bicicleta simplesmente não tem a roda da frente!Bolas, esta malta por aqui está muito, mesmo muito animada…diria eufórica! Olha o pifo daquele? Irra…E aqui?, tanta gente? Mas isto está tudo bêbedo? Bem mais concentrado aqui…já não tenho tanto espaço para andar. Olha-me estes gajos….andam atrás de mim? Epa, porra…estão a encurralar-me! Deixa-me segurar bem na bolsa da máquina fotográfica. Ai, ai…o que é que este quer? Não estou bem aqui…
16h15 - Deixa-me sair daqui e RÁPIDO. Acelero o passo e não olho para trás!! Olha só estas figuras? Esta malta está…está…anda rápido pá!
Agora é que noto…está um calor terrível! Sombras, onde andam vocês? Nada?....arcadas então! Afinal, estava mesmo a derreter de calor e que experiência aquela. Se eu ficasse ali…bem…nem vale a pena pensar…olha, mais branquinhos aqui à sombra! É não, é? Um bafo que nem deixa respirar…mas é melhor ficarem por aqui…não se aventurem muito!

17h - Bom, parece que está a começar o desfile. Viesse uma hora mais tarde e seria perfeito, mas enfim! Vou então experimentar avançar um pouco mais, mas agora pelo lado interior da marginal.
Olha, estás a ver André, aqui há famílias e tudo, olha aqui um segurança, mais uns estrangeiros a tirar fotos….sim senhor, assim sim! Até merece uma bjeca.
- Boa tarde, é uma Cuca se faz favor.
E aproxima-se um gajo, com os decibéis vocais muito alterados pelo álcool:
- Cumé branco? Paga aí umas birras…paga 8! És branco, tens dinheiro…e não pagas? Tu não és da minha cor…paga aí pá!
Será que mando este gajo à merda ou começo por lhe explicar que o sangue que corre nas veias de ambos é vermelho? Olhei à volta. Epa…isto é só pretos…é melhor não esticar a corda!
Fui embora…e ele ficou com o troco que dava para uma cerveja, claro!! A malta que tinha que me dar o troco devia estar a desenhar a nota…e à MÃO!! Demoraram o tempo suficiente para eu ser humilhado e chateado…
17h30 - Bem, o melhor é afastar-me daqui porque não me interessam amizades com aquele C#2%§&.
Olha outra fotita aqui. Mas isto está muito mal organizado pá!!! Estranho…os concorrentes acabam o desfile onde lhes apetece…Passam a zona das bancadas e deixam de dançar. Compreendo que esteja calor, mas…olha aquela malta?! Acabam o desfile e sentam-se na estrada a beber Cucas… Bom, deve ser uma espécie de tradição, ou assim…um “hábito local”.

Parado aqui chamo muito à atenção…já estou a ver muita malta suspeita a chegar-se perto! Bem…vou andar um pouco e ver se tiro mais fotos…
Uns metros mais à frente havia uma esplanada, com entrada limitada, com vários seguranças e cheia de brancos. Pois, agora percebo este aparato! Não sabia que era preciso uma fortaleza destas para assistir ao Carnaval, mas cada vez compreendo melhor que afinal… Mas eu não! Eu vim para me fundir na multidão, sentir as vibrações mais puras, para tirar fotos e levar a história até à Tertúlia. Olha ali mais à frente parece um bom local.

17h45 – Mas, é impressão minha ou estou a ver este gajo com ar de bandido há vários minutos? É que como eu tenho estado sempre a andar, é uma coincidência estranha que ele faça o mesmo trajecto!! Mas…para onde é que ele está a olhar? Para as cinturas de todas as pessoas, em jeito de perdigueiro. CLICK Este gajo está MESMO a ver o que pode puxar…
Voltar para trás então! Tentar despistar este caçador!

Entretanto aproximam-se de mim dois rapazes. Um de cada lado e o da direita pergunta:
- Qual é o nome do grupo que está a desfilar?
Caro amigo, e eu com um olho para cada lado, esse truque é muito comum e está suficientemente difundido para me tomares por parvo!
- Epa…não sei bem o nome mas espreita ali…olha levam uns cartazes…
Eles, querendo disfarçar, olharam para os cartazes, concentrados, e eu aproveitei e fiz a “revienga”: dois passos para trás e vinte bem rápidos para o lado!
18h – Sinto-me numa arena de crocodilos e vai ser uma questão de tempo para me assaltarem mesmo! Porra…vou para casa que já é hora! A experiência está vivida, sobrevivi, não fui assaltado nem espancado e tenho algumas (poucas) fotos. Amanhã trabalho…UFA!

Ficam as imagens da marginal, ao fim da tarde, cheia de gente. A festa ainda continuou noite dentro, mas como devem calcular, não tenho pena de não ter ficado para assistir. A marginal que muda de horizonte com grande rapidez. Em apenas alguns meses têm vindo a surgir edifícios enormes, principalmente para escritórios. A velocidade de crescimento é tanta que, basta uma ausência de 1 a 2 meses para ver mais um edifício pular da terra…

Se esta é a maior manifestação cultural do país…o país está mal! Acredito, no entanto que 70% das pessoas que lá estavam não reflectem 70% do país… Muitos angolanos disseram-me (depois!!) que não vão à marginal no Carnaval. “Não tenho pachorra”, “É grande confusão”, “Muitos bêbedos”. Compreendo isso tudo…mas quem faria a reportagem tertuliana? Uma boa percentagem dos presentes tem défice de formação pessoal e vive, obviamente, problemas sociais graves. O fosso social em Angola é evidente, como já tive oportunidade de ir referindo neste blog e, nestas manifestações culturais, o fosso vem à rua…aos olhos de toda a gente.