2 de março de 2011

Fado


Noutro dia fui convidado por um amigo para ir a um churrasco na praia. Uma palhota na areia, a escassos metros da água, brasa acesa e arcas a manter a cerveja fresca. OK. Apetrechei-me com uma caixa de cervejas, cortei um ananás, temperei-o com um pouco de vinho do Porto e aí fui eu. O motivo do evento, soube-o quando lá cheguei, era festejar o encerramento desportivo de uma equipa amadora aqui de Pemba. Tinham sido campeões. Facto para o qual, remota e indirectamente também contribui: joguei num terreno irregular, com areia e pedras, e com fogosidade de contacto físico além do que consigo dar. Contribuição que terminou, de forma sábia, com a minha subsituação ao fim de 20 minutos. Mas o que fica para a História é que joguei à defesa e durante aquele período não sofremos golos!

No convívio na praia só havia praticamente homens. Eu era o único português e dos poucos brancos. Apresentei-me ao dono do local com as cervejas e o ananás na mão. Ele disse: “as cervejas mete-as na arca. O ananás não é para agora. Guarda!”. Discursos, cantigas, cerveja, exibição da Taça, homenagens, cerveja, planos para o futuro, revisão de jogos ou jogadas e muita cerveja. A comida demorou a ficar pronta e quando veio o espírito já estava alegre e os corpos bamboleantes. Foi caindo a noite e a iluminação era escassa, apenas algumas lanternas e os faróis dos carros. Os decibéis de conversação foram subindo, apesar de haver música vinda de um auto-rádio. Não havia oportunidade de dança, uma vez que os pares seriam constituídos apenas por homens. Mas a música tinha presença. Até fui buscar a minha caixa de CD’s e tomei a liberdade de polvilhar alguns momentos com ritmos animados. Alguns jogadores já se abraçavam. Não sei se apenas por amizade desportiva ou se por necessidade de estabilização. Começou a debandada de pessoas e achei que era altura do ananás. Abri a caixa e em minutos desapareceu. Voou!

De repente comecei a ouvir a música da Mariza vinda do rádio. A confusão continuava a ser muita e a decadência tinha-se instalado. Tropecei num gajo que estava no chão. A dormir, pensei eu. Não. A vomitar, constatei depois. Como o álcool não chega de forma igual a todos, já havia quem discutisse de forma vigorosa. Arrastavam-se os criadores de confusão para o próximo carro que partisse dali para fora. Davam-se sermões de moral aos que ainda mostravam alguma consciência. O presidente da tal equipa perguntou em voz bem alta: “quem pôs este CD?”. A pergunta vinha num tom de quem já tinha feito a pergunta várias vezes e não tinha conseguido romper o ruído em redor para se fazer ouvir. Eu já não conseguia ver o senhor que tinha posto o CD e ele próprio não se acusava. Eu não tinha posto, mas o CD de facto era meu. Naquele contexto não sabia bem o que fazer. Mariza estava muito desenquadrada daquele ambiente, disso não havia dúvida. Poucos seriam os que estavam aptos a apreciar. Timidamente disse: “bem, o CD é meu, mas…” e fiquei na expectativa, como um guarda-redes segundos antes do penalty: para que lado irá a bola? Se eu acertar o lado, soco a bola ou agarro-a? Ele olhou para mim e de imediato perguntou:

- Como é que te chamas?

- André. – disse, seco, sem saber o que aí vinha

- André, o fado toca-me. Fico muito sensibilizado quando o ouço.

Ufa, acertei no lado da bola e encaixei-a mesmo junto ao peito. Se há respostas inesperadas nalguns momentos, esta foi uma delas. Como é que naquele ambiente alguém tinha o sentido da audição apurado e com a alma receptiva a ouvir fado? Fiquei a olhar para ele, com meio sorriso na cara, resultado de satisfação e espanto. Ele disse, com o peito a suspirar: “Isto é lindo. Gravas-me um CD?”. Com certeza, respondi eu. No dia seguinte entreguei um CD de Mariza ao presidente da equipa, claro…


7 comentários:

Bichocao disse...

Mas tu andas-te a embebedar assim de qq modo? :)

ginjas disse...

Muito nice! Fica aqui o acrescento que a Marisa é de Moçambique tb ;)

Andre disse...

Grande André,

Estas tuas crónicas são o delírio para os comuns mortais aqui do pais da crise eterna :)

André pequeno

Joana disse...

Epá, que prova dura superaste!!

bj

Isa disse...

Adorei a descrição cena a cena :)
Muito bom post. Bjo

Sara disse...

ui.......Marisa estava mto bem enquadrada.....!!! bela noitada panguiau......xuac

André Miguel disse...

Ouvir Marisa depois de uma noite de copos nos trópicos?!

Gostei de ler.
Voltarei mais vezes.