12 de outubro de 2010

Postais de Macau

De Hong Kong apanha-se um ferry, em direccao a Macau. Partem com enorme frequencia e levam apenas uma hora.
A bordo, os 3 viajantes dao de beber a sede, com cha de cevada...

Macau tem, eu diria, tres frentes completamente diferentes: a componente tradicional, a componente mais turistica e a do jogo.
A parte tradicional oferece-nos mercados tipicos, no minimo, cativantes. Apresenta-se-nos uma variedade imensa de produtos, maior parte incluidos na minha ignorancia.

A descoberta de tais iguarias faz-se pelo cheiro e pelo aspecto. Accao que nos leva, por vezes e sem nada experimentar, a contorcer o estomago ou a criar agua na boca.

Quase todos os animais que estao expostos, estao vivos. A morte chega-lhes de forma natural, assim que sao escolhidos em troca de algumas patacas... Em menos de 5 minutos vi frangos a serem degolados e peixes a perecerem com pancada na cabeca. Cheguei a ver um peixe que ja estava cortado, sem rabo, e ainda tinha tremeliques. Tudo muito fresco!!

Cabecas de galinha

Sapos na jaula que lhe da acesso ao corredor da morte, em direccao a uma frigideira qualquer...
Mas como nem so de estomago vivem os mercados...ha tambem lugar a alfaiates, que nos medem no local e nos vestem, para que possamos, depois de comer, ir jogar com boa aparencia.
Na zona sul de Macau existe um local com areia, banhado por agua. Mas seria uma injustica chamar-lhe praia...seria injusto para as praias que o sao na realidade. Este espaco e deprimente e nada apelativo...
Templos Taoistas...

Vestigios portugueses...com a merecida homenagem ao poeta Camoes.

A famosa igreja de Sao Paulo...que e, na minha opiniao, uma desilusao. Resta apenas a fachada, mas isso nao seria problema se houvesse explicacoes e nao estivesse invadido de chineses a tirar 1000 fotos por minuto. Eu acho que eles nem param para ver a fachada ao vivo...
Ao vivo existe a substituicao visivel de locais historicos por edificios extravagantes dos casinos.

Calcada portuguesa, que cobre parte da zona central da cidade e e o tapete para todas as nacionalidades.

E a componente do jogo. Um vicio que Macau alimenta, que alimenta Macau e que e a bandeira deste local. Dezenas de casinos, abertos 24 horas por dia, sempre cheios! Rios de dolares em jogo...nos que estao a vista. Calculo que em salas privadas se joguem oceanos de dolares.

E nao sei porque, mas associado aos casinos esta sempre o piroso. Neste caso, dentro do maior casino de Macau, podemos passear de gondola...fotografando uma Veneza a fingir.


7 de outubro de 2010

Postais de HONG KONG

O teclado e Chines...desculpem a rude escrita...


Quando tudo parece Chines...e-o mesmo! E depois do choque publicitario que sofremos a todo o momento...ate conseguimos ver que ha letras familiares.
MOVIMENTO acho que seria a palavra que descreveria, de froma simplista, o local. Um mar frenetico de barcos banha uma cidade repleta de arranha ceus, freneticos de negocio.
O que destoa aqui e parar...e admirar a energia da cidade, numa calma alheia ao movimento.
A cidade ensina-nos como gerir 7 milhoes de populacao fixa, e milhares de visitantes a qualquer hora. O transito chega a ter 3 ou 4 niveis de viadutos, em altura, para escoar transportes publicos, carros, pessoas, etc...
Numa superficie reduzida, como encaixar tanta gente? Facil...em "gaiolas" distribuidas em altura...
O preco a pagar e a poluicao que ja assombra Hong Kong. Maior parte do tempo tem um "smog", que e misto nuvens e misto fumo...o ar que se respira deve muito a qualidade. A noite as estrelas nem se veem! Sao substituidas pelos satelites artificias criados pelas luzes dos edificios.

Os petiscos sao um forte. E mesmo quando esta tudo em Chines...


...nada como apontar, gesticular e aguardar que cada iguaria escolhida seja processada no WOK...em 1 ou 2 minutos. Chas nas esquinas, para matar a sede e enfrentar a humidade quente da cidade, sao uma optima solucao...

Os mercados ainda va que nao va...agora os centros comerciais??? Mas que DOENCA! Existem aos milhares, com varios pisos, centenas de lojas, sempre cheias! Quem me explica isto?

E uma cidade frenetica...movida pelo negocio, cosmopolita, consumo desenfriado, influencias diversas, produtos de topo, produtos de imitacao, gente que nao acaba a brotar em cada esquina.
Mas como em tudo...ou se embarca na aventura...ou se fica em terra...


30 de setembro de 2010

A tertúlia vai à Ásia


Nascido no coração de Portugal, adoptado pela Europa, apaixonado e a viver em África...vou agora à Ásia. Se este não é o fruto doce da globalização...então não sei o que é!

3 semanas de férias com passagem prevista em: Hong Kong, Macau, Singapura, Malásia e Bangkok...

23 de setembro de 2010

Ilha de Moçambique

Num fim-de-semana alargado peguei em mim e fui passear à Ilha de Moçambique. Mas a viagem foi mais do que uma simples deslocação espacial. Viagem no tempo, viagem nas páginas da História…

A estreita ponte que nos encaminha à Ilha deixa antever um lugar com pouco tráfego. Tem, na maior parte da sua extensão, uma única faixa e apenas 4 zonas mais largas onde se podem cruzar os carros. À chegada temos um mapa simples da Ilha, anunciando que é património mundial da UNESCO, desde 1991.

Mas desiludam-se as mentes que vão à espera de algum “lugar monumento”. Antes pelo contrário, a primeira impressão é bastante desoladora. Numa primeira parte as pessoas são visivelmente carenciadas, embora muito afáveis, e tentam vender tudo no meio da estrada.

A segunda parte da ilha deixou-me boquiaberto. À primeira vista parece um cenário digno de far west com ruas poeirentas e edifícios desleixados pelo tempo. Quase que juro ter ouvido os cowboys a beber dentro dos saloons e a qualquer momento esperava um novelo de ramos a cruzar-se comigo, contra o vento.

O mais engraçado é que essa impressão cai logo por terra, quando nos dedicamos a um passeio com olhar mais atento. A vida afinal pulula em todos os sítios, começando com uma demonstração de resistência da flora.

O material com que foram reconstruídos estes edifícios é areia local, com muita riqueza orgânica. Resultado: as árvores alimentam-se…das paredes!, e mesmo depois de fazer uns cortes aos troncos, para impedir o seu desenvolvimento, a árvore mostra como se pode continuar a viver, sorrindo ao sol.

Eu diria que mais de metade da ilha tem os seus edifícios em estado avançado de degradação. Mas seria redutor acabar a ideia por aqui. Os edifícios cansados e com rugas vincadas albergam casas e comércio de forma quase natural, não fosse o risco de queda. À noite também eles descansam, com respiração lenta, numa tentativa de revitalização para enfrentar o dia seguinte.

O espaço destinado ao hospital deixa-nos a dúvida no ar: hospital ou casa fantasma? Mas a entrada sobrevive, ainda imponente, e elucida-nos em relação à pergunta.

O letreiro, em postura fidalga, alheia ao redor, dá entrada aos palácios do hospital. Que menos não são que isso: senhores palácios, com escadarias firmes, embora jardins áridos e fontes secas de água. Uma estrutura hoje que nos conta histórias de ontem e espicaça a nossa mente para imaginarmos o local nos tempos idos, com os doentes a chegarem a carroça e as saias largas das donzelas a varrerem a escadaria.

Depois há, ao longo da ilha, sinais dos tempos, deixados por diversas culturas:

Coretos ao bom jeito Lisboeta.

Mesquitas em estado de conservação admirável. Telhados árabes com terraços para aproveitarem a água das chuvas.

O mercado, que já esqueceu a idade, humilde mas ainda funcional.

Dois eternos habitantes, outrora vigorosos de carne e osso, agora de ferro e pedra, erguidos numa homenagem justificada.

Vasco da Gama que, ao virar o cabo da tormentas, descansou na ilha e abriu o precedente à sua inclusão em futuras rotas para a Índia. Atrás da sua estátua, o museu da Ilha, edifício reabilitado, mas com um conteúdo que deixa a desejar, partilhando o protagonismo da exposição com o exterior, com a envolvência das ruas.

Luís Vaz de Camões, que ali viveu durante dois anos, entre 1567 e 1569.

E finalmente, mas não menos importante, a fortaleza de S. Sebastião, que ali está à beira mar há mais de 450 anos, construída com o intuito de salvaguardar a segurança, face aos diversos ataques. Uma impressionante estrutura, de dimensões, diria eu, desproporcionais, comparativamente com o reduzido tamanho da Ilha.



A ilha revela-se assim um livro de história, aberto à poeira do tempo. Um livro com umas páginas rasgadas, outras soltas. Um livro onde algumas letras já mal se lêem, mas que deixam adivinhar um lugar misterioso, escrito com caligrafia arquitectónica ímpar.

E não seria para menos, a história da ilha, ali ancorada há milhares de anos, é um acumular de influências impressionante, que tento sintetizar de seguida, baseado no panfleto vendido no museu da Ilha.

A ilha, ocupada inicialmente por população africana, tem uma localização geográfica privilegiada, servindo, na altura, os interesses comerciais entre dois continentes: Ásia e África.

A primeira fase de navegação nestes “mares” esteve a cargo do império árabe, desde o séc. VIII ao séc. XV. A influência islâmica estendeu-se desde o arquipélago indonésio, costa africana, mar vermelho e rio Save (um pouco a norte do famoso arquipélago de Bazaruto). Essa influência é ainda hoje sentida, principalmente no norte de Moçambique, com a enorme expressão da religião muçulmana. Ao longo da costa africana surgiu uma nova civilização, os swaihilis, fruto do cruzamento africano e muçulmano.

A segunda fase de navegações começou em 1498, com a chegada de Vasco da Gama, que depois de dobrar o cabo, estabeleceu, com ajuda de pilotos árabes, a ligação entre África e Índia. Iniciou assim, não só uma nova rota comercial no mundo, mas também o inicio de um dos mais notáveis impérios da História: as Descobertas, feitas pelos portugueses. E não exagero! Os livros assim o contam e, nos dias de hoje, ainda fico espantado como foram os meus conterrâneos capazes de tal façanhas. Saídos de um país miserável, com cerca de 1 milhão de habitantes, saídos em “barcaças” vulneráveis, em mar aberto, sem conhecimento da medição da longitude, desbravaram horizontes desconhecidos à mercê de doenças e da morte. Mas este capítulo fica talvez para mais tarde, para fazer a justa homenagem…

Como o século XVI e metade do século XVII foram de domínio Português pelas bandas do Índico, a escolha da Ilha como principal base deu-se em 1507, pela importância geográfica do seu porto. Os navios que se atrasassem na partida de Lisboa perdiam os ventos da monção e tinham que invernar na baía de Moussuril durante longos meses.

A ilha começou a ser cobiçada por árabes, pelo norte, por holandeses, franceses e ingleses pelo sul, dando inicio a batalhas da 2ª fase de colonização. A ilha foi destruída no inicio do século XVII e a sua reconstrução recorreu aos materiais locais: pedra de coral e cal. Na segunda metade do século XVII, o comércio a norte de Cabo Delgado voltou a estar sob controlo árabe. Ao longo do séc. XVII a sucessão de ataques imprimia um ritmo de destruição superior ao que era possível reconstruir. Portugal estava a perder território nas trocas comerciais e, em 1752, o primeiro-ministro marquês de Pombal, decidiu instituir o Governo de Moçambique na Ilha, numa tentativa de recuperar o punho dos acontecimentos. O último barco de escravos saiu da ilha em 1831 e a população negra pôde, em 1840, ocupar finalmente a Ilha, que ganhou uma divisória, ainda hoje visível, com parte portuguesa, na cidade de Pedra e Cal e a parte africana na parte de Macúti.

Portugal dispersou o seu interesse no interior do território moçambicano e, em 1898 a capital do país passou para Lourenço Marques, hoje Maputo. O porto da ilha perdeu fôlego em detrimento do porto de águas profundas de Nacala que foi inaugurado em 1951. A população fugiu da ilha após a independência, mas a ela retomou durante a guerra civil. Quando a paz chegou a Moçambique, em 1992, a ilha era já considerada património mundial da UNESCO há um ano.