1 de agosto de 2010

Circuito policial...

Numa indeterminada cidade de África regresso a casa à noite, conduzindo um carro novo em folha, sem documentos. Apenas com licença de circulação que, nos primeiros tempos é suficiente, mas pode dar facilmente azo a implicações. Opto por uma rua pacata para evitar loucuras de condutores que entornam o copo no volante, ou depositam a masculinidade em todos os cavalos que o carro tem. Ao fundo vejo uma lanterna no meio da estrada a mandar parar, um carro da polícia e logo ganho motivos para me arrepender pela escolha do itinerário!

- Boa noite, está frio, hã? – diz o polícia.

- Boa noite senhor agente. É verdade, mas é muito importante estarem a fazer este controlo na estrada – pensando contra mim, mas sendo sincero.

- Pois, mas estamos sem café, sabe?

Percebi de imediato a bela metáfora. E devo confessar que foi a abordagem mais rápida que algum polícia me fez com o intuito de pedir um ”valor”. Deixo a conversa fluir para ter a certeza de que ouvi bem. Não tenho a iniciativa de lhe mostrar os documentos. Aguardo que ele mos peça.

- Então e vai para casa?

- Vou sim senhor agente…

- Vai ter com a sua namorada?

- Mas isto é um posto de controlo social? Não tenho namorada, senhor agente.

- Como não?

- É assim…

- Mas tens que ter, é muito importante. Alguém para nos esperar à noite em casa, para falarmos no segredo dos lençóis.

- Pois! Mas quando é que ele me vai pedir os documentos? Mas sabe, parece que o meu destino agora não anda virado para aí…

- AAhhh…pois, fica só com as miudinhas, não é?...também é bom, mas precisas duma fixa, além das meninas que arranjas fora de casa. Uma fixa dá orgulho à nossa família, sabes?

- Boa, agora temos uma discussão de gestão do mercado feminino. Será que me vai impingir a sua filha, moça casadoira, em vez de me pedir os documentos?

- Como é então em relação ao nosso café? – voltando assim à bem conseguida metáfora

Não gosto de o fazer, mas dei-lhe uma nota, para beber o seu tão desejado café e não ter que expor a minha intimidade ali, naquela rua pacata.

No dia seguinte fiz uma inversão de marcha e, logo que retomo a nova direcção, sou mandado parar, naquilo a que chamaria de ratoeira. Parece que estavam à espera.

- Boa noite.

- Boa noite, senhor agente.

- Você anda bem, hã?

- Ando sim. Está a ver que até tenho cinto? Eu e o passageiro. – respondo eu, ainda mergulhado na ingenuidade.

- Então e aquele sinal, não viu?

Viro a cabeça e, no meio de árvores e cartazes de publicidade vejo o tão indesejado: proibido fazer inversão de marcha. Ei-lo ali, bem visível, e ao alcance de todos. PORRA, penso, agora tem razão.

- Senhor agente, não tinha visto! – curto e conciso, pois nestas alturas é o que sei fazer.

- Pois é, estava lá o sinal. E sabe que a multa é de 1000 meticais? (por volta de 23 euros)

- Não sabia, mas parece-me que só me resta pagar, não é?

- Será? – responde o polícia com um sorriso matreiro

- Mas estes polícias agora são peritos em metáforas e charadas? Que se passa?- penso eu

- Podemos resolver doutra forma.

- Bem, este só é especialista em charadas, porque de metáfora não tem nada! Mas…espera…estes tipos nem polícias de trânsito são. Passe a multa então, senhor agente. Acho que é o mais justo. – para ver como se descalça um polícia de segurança pública a passar multas de trânsito.

- Mas quer ir à esquadra?

- Se tiver que ser vou, senhor agente. Cometi uma infracção, devo pagar por ela. – eu na minha batalha de cidadão cumpridor, com o secreto conhecimento de que não poderia ser multado naquela situação.

Ali estava uma interessante charada: eu tinha infringido a lei, mas AQUELE polícia não me podia multar. Ele começou a ficar nervoso e a dar voltas ao carro.

- Bom, então e se resolvêssemos já aqui? – diz o polícia descalçando assim, de forma óbvia, a pressão.

O que se seguiu foi um capítulo que vou omitir neste texto. Basicamente regateei a “atenção” a dar ao polícia e segui caminho. Mais uma vez digo: não gosto de o fazer, mas às vezes facilita tanto! A história completa fica para contar à lareira, num futuro…

Umas horas depois, estaciono o carro noutra parte da cidade e, ao sair para a rua, vejo um aparato demasiado agitado em meu redor. Saltam dois polícias duma pick-up, em jeito de rusga, um deles com uma metralhadora a tiracolo. Será para mim?, penso eu ainda alheio ao que se estava a passar.

- ENTRE NO CARRO, MOSTRE OS DOCUMENTOS DA VIATURA E CARTA DE CONDUÇÃO. – diz um deles muito claro e mas vigoroso.

- Olha, é mesmo para mim. Mas o que se passa? Terei uma placa no carro a dizer: “agentes de autoridade, não tenho documentos, por favor mandem-me parar, chateiem-me e levem algum”?

- Não vou entrar dentro do carro. – digo eu já farto daquela novela toda. Novela de ficção, claro. Cabe na cabeça de alguém pedir aquilo?

- Facilite a situação. ENTRE NO CARRO, MOSTRE OS DOCUMENTOS DA VIATURA E CARTA DE CONDUÇÃO. – insistindo eles naquela ideia.

- Que será que me vão fazer? Obrigar a andar uns metros até pisar um risco contínuo e multar-me? Ou vão já encher-me de balas? NÃO entro senhor agente. Estou fora do carro. Se quiser mostro-lhe o meu passaporte.

Nisto há um outro carro que faz inversão de marcha num local proibido e de repente todo aquele aparato ganha nova direcção. Todos os polícias, carro de patrulha e metralhadoras apontam agora a um novo alvo e vão-se embora, sem sequer ver o meu passaporte, QUE ESTÁ LEGAL, BOLAS!

Quando fui ter com uns amigos, logo de seguida, pedi que me ajudassem: estarei a delirar? Não, André, é assim mesmo, já devias estar habituado – respondem. Pois, bem sei, mas acho que foi uma overdose de insanidade em tão pouco tempo, não estava preparado…


11 comentários:

Bichocao disse...

Não percebi, afinal os gajos eram policias ou não?

Casola disse...

Oh sr engº... mas q é isso?! a tua vida ai n tem um momento de tédio... ;) Continuação de grandes tertúlias!
Bj

macaca grava-por-cima disse...

ufa!!! uma desgraça nunca vem só... bjs

Sara disse...

ahahahahahahha...demais!!! maravilhoso......!! ja nao me sinto tao sozinha nas loucuras do mundo!!! mas mesmo assim acho que devias ir a bruxa.....

macaca bzana disse...

Isso é que foi aventura!!! LOL! É, sem dúvida, uma animação! Bjs

Xpesxpicaz disse...

e os ladrões chateiam te ou é só os pulicia? :-))

RAD disse...

Pensei que os polícias moçambicanos eram menos corruptos que os polícias angolanos, mas afinal é tudo a mesma m...

Chiça, o meu crédito de paciência está mesmo esgotado para esse tipo de "mbaias".

Boa sorte! ;)

fuba disse...

E eu na minha ingenuidade a pensar que na Contra-costa as coisas seriam diferentes.
É realmente uma instituição....

abc e boa sorte!

Isa disse...

caramba André, só tu e a tua paci~encia de santo... bjo e continuação de boa sorte :)

ginarsenio disse...

heheheh....e eu q achava q os de Angola eram os piores.........
Beijinhos Andre e muita coragem.

Joana disse...

Bolas!!! Achei que aí polícia seria mais calmo...

Deve ser uma cidade demasiado parada, não?

bjs